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O que ainda precisamos dizer sobre ser mulher - Por Nana Vier

A revista Marie Claire escolheu Erika Hilton como “Mulher do Ano”. A manchete circulou veloz, acompanhada de aplausos, discursos prontos e a sensação confortável de que estamos todos do lado certo da história. Eu li com atenção. Respirei fundo. E não gostei. Não por intolerância, nem por medo do novo, mas porque há debates que não podem ser resolvidos com capas bonitas e frases de efeito.


Ser mulher nunca foi um conceito abstrato. Nunca foi apenas identidade. Ser mulher é experiência física antes de qualquer construção simbólica. Mulher menstrua. Mulher tem útero mesmo quando ele já não está ali, ele existiu como possibilidade, como risco, como imposição social. Mulher aprende cedo a conviver com dor, sangramento, gravidez, medo e vigilância sobre o próprio corpo. Isso não é poesia. É realidade biológica atravessada por séculos de desigualdade.


Nós lutamos muito para que essa realidade fosse reconhecida. Para que a desigualdade não fosse tratada como opinião, mas como fato. Para que o mundo entendesse que o corpo importa, sim, quando se fala em direitos, segurança e justiça. Não foi fácil conquistar espaços no trabalho, na política, no esporte, na ciência. Cada avanço custou tempo, desgaste e, muitas vezes, vidas.


No esporte, por exemplo, mulheres competem em categorias próprias porque não têm a mesma força, a mesma musculatura, a mesma densidade óssea dos homens. Isso não é preconceito: é fisiologia. Ignorar esse dado não é inclusão; é apagar a razão histórica pela qual o esporte feminino precisou existir. É fingir que o corpo não conta, quando ele sempre contou, especialmente contra nós.


Fora das capas de revista, no mundo real, mulheres seguem sendo maioria entre mães solo, chefes de família, trabalhadoras informais e cuidadoras invisíveis. São elas que sustentam casas inteiras com salários menores, jornadas duplas ou triplas e nenhuma rede de apoio. São elas que faltam ao trabalho porque o filho adoeceu, que envelhecem mais pobres, que se aposentam mais tarde. São elas que sofrem violência doméstica porque seus corpos são, sim, anatomicamente mais frágeis. Isso não é discurso ideológico. É estatística. É boletim de ocorrência. É necrotério.


Quando o conceito de mulher se torna amplo demais, elástico demais, quem desaparece são justamente essas mulheres. As que não escolhem narrativa. As que não têm palco. As que não recebem prêmio algum por resistir todos os dias. As que continuam sendo violentadas, exploradas e silenciadas enquanto o debate acontece em ambientes confortáveis.


Reconhecer a dignidade de pessoas trans é necessário e humano. Isso não está em discussão. Mas essa dignidade não exige apagar a materialidade da experiência feminina. Inclusão não pode significar substituição simbólica. Avanço não é confusão conceitual. Direitos não se constroem diluindo realidades, mas reconhecendo diferenças concretas.


Chamar qualquer discordância de preconceito é fácil. Difícil é sustentar um debate honesto, adulto e responsável, sem medo de dizer que o corpo importa. Porque, no fim, quando a palavra “mulher” vira território em disputa, quem perde espaço são aquelas que sempre tiveram menos e que lutaram demais para agora serem novamente empurradas para o canto da história. 


Nana Vier, é professora e escritora

 

 
 
 

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