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O retrô e o velho - Por Magali Schmitt

27 de jul.
2 min de leitura

Não canso de repetir que a vida é cíclica, que estamos sempre vivendo mais do mesmo e repetindo costumes. Uma pitada de glitter, um nome estiloso, de preferência em inglês, um pouco de perfumaria e voilà: temos a fórmula mágica para desenterrar quase tudo com sucesso, da moda aos velhos hábitos. Foi assim com a boca de sino, que virou calça flare; com o bustier, que já atendeu por top, mas agora é cropped; com o crochê, que está em alta; e com o chamado retrô, de modo geral, que ressuscitou discos de vinil, máquinas fotográficas, tênis, relógios e eletrodomésticos antigos, transformando-os em objetos de desejo.


Isso me fez pensar que, ao invés de apenas resgatar, a gente também tem recriado e distorcido práticas que pareciam esquecidas. Dizem que em diferentes épocas e culturas algumas comunidades abandonavam idosos à morte. Faziam isso quando eles já não conseguiam mais acompanhar o grupo ou em períodos extremos de escassez. Fora do contexto histórico soa cruel, não? Ainda assim, a imagem incomoda porque nos obriga a olhar para as formas contemporâneas de abandono — menos visíveis e, talvez por isso, mais fáceis de aceitar.


Se formos observar bem de perto, parece que estamos fazendo algo parecido, ainda que sem rituais explícitos nem levando ninguém para as montanhas ou lugares isolados. Enquanto o objeto retrô ganha destaque dentro das nossas casas, a pessoa velha perde espaço. Ser idoso não oferece glamour nesta época. Ser velho pesa. Envelheceu? Saia da vista, não atrapalhe o ritmo, não reivindique protagonismo. O mundo parece pertencer aos jovens cheios de colágeno, músculos e rapidez de processamento.

A questão é que já chegamos ao ponto de mudança: a pirâmide etária se transforma, a população envelhece e a velhice deixa de ser uma exceção distante. E como a sociedade vai lidar consigo mesma quando envelhecer por completo? Preciso fazer uma dura revelação: a juventude não é permanente. É apenas uma sala de espera — embora a publicidade insista em vendê-la como endereço definitivo.


Então, ao invés de tentar varrer os velhos para debaixo do tapete, é hora de entender a mudança. Talvez esteja aí a ironia: admiramos a pátina dos móveis, o chiado dos discos, as marcas do tempo nas fotografias e a aparência envelhecida de objetos. Pagamos mais por essas peças, mas esperamos que as pessoas atravessem as décadas sem rugas, lentidão ou qualquer sinal de uso. Chamamos de retrô aquilo que desejamos conservar e de velho o que aprendemos a descartar. Se somos tão competentes em transformar o passado em tendência, talvez esteja na hora de usar um pouco dessa criatividade para ressignificar também a velhice — não como imitação da juventude, mas como uma fase normal da vida e que tem muito valor.










Magali Schmitt, é escritora e jornalista.



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