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O silêncio das vítimas - Por Nana Vier

Há uma pergunta que sempre reaparece quando um criminoso sofre algum tipo de violência dentro do sistema prisional: como alguém pode sentir alívio diante do sofrimento de outro ser humano?


É uma pergunta legítima. Mas talvez esteja sendo feita para a pessoa errada.


O verdadeiro incômodo não deveria ser entender por que algumas pessoas não conseguem lamentar o sofrimento de quem praticou uma atrocidade. O verdadeiro incômodo deveria ser compreender como chegamos ao ponto de discutir a dor do agressor antes mesmo de termos elaborado a dor da vítima.


Essa inversão de perspectiva tem se tornado cada vez mais frequente. Em muitos casos, a atenção pública rapidamente se desloca para a história de quem praticou o crime. Discutem-se seus traumas, sua infância, sua saúde mental, suas circunstâncias e suas possibilidades de recuperação. Tudo isso pode ser importante para compreender o comportamento humano. O que não pode acontecer é a vítima desaparecer da conversa.


Não sou especialista em comportamento humano. Sou alguém que observa as pessoas, se inquieta com determinadas questões e gosta de estudar aquilo que desperta minha curiosidade. Faço isso por respeito ao leitor e também por respeito à verdade. Antes de formar uma opinião, procuro compreender o que a psicologia, a filosofia, a antropologia e outras áreas têm a dizer sobre o assunto.


Foi justamente esse hábito que me ensinou uma diferença importante: compreender nunca foi sinônimo de justificar.


A ciência procura causas, identifica padrões, investiga fatores de risco e tenta explicar como alguém se torna capaz de cometer atos tão brutais. Esse trabalho é indispensável. Sem ele, jamais desenvolveríamos políticas públicas de prevenção, tratamentos ou mecanismos capazes de reduzir a violência.


Existe uma fronteira ética que não pode ser atravessada. Explicar o comportamento de um agressor é uma necessidade científica. Justificá-lo, relativizá-lo ou deslocar para ele nossa maior compaixão é um erro moral.


Vivemos um tempo em que, muitas vezes, a narrativa sobre o criminoso ganha mais espaço do que a história da vítima. Debatem-se traumas, infâncias difíceis, exclusão social, transtornos e circunstâncias. Tudo isso pode ajudar a explicar um comportamento. Nenhum desses fatores, porém, apaga a responsabilidade por uma escolha.


A sensação de desequilíbrio aumenta quando decisões judiciais parecem distanciar a gravidade do crime de suas consequências imediatas. Recentemente, dois empresários do Vale dos Sinos investigados por armazenar imagens de abuso sexual infantil deixaram a prisão mediante o cumprimento de medidas cautelares impostas pela Justiça. Independentemente dos fundamentos jurídicos da decisão, é impossível ignorar o desconforto que ela provoca. O estômago revira quando percebemos que crianças foram novamente transformadas em notas de rodapé, enquanto o debate passa a girar em torno das condições impostas aos investigados.


É justamente nesses momentos que precisamos lembrar quem ocupa o centro dessa história. Não são os autores do crime. São as crianças exploradas, violentadas e marcadas para o resto da vida para que essas imagens existissem. Cada imagem armazenada, cada arquivo compartilhado e cada visualização alimentam uma cadeia de violência que começa muito antes de chegar à tela de quem a consome. Não existe vítima virtual. Existe uma criança real que foi abusada para que aquela imagem pudesse existir.


A justiça existe justamente porque reconhecemos que seres humanos possuem capacidade de decidir entre limites que podem ou não ser ultrapassados. Quando esses limites são rompidos, especialmente contra crianças, a sociedade precisa responder com firmeza.


Isso não significa defender vingança, tortura ou desumanização. Significa reconhecer que consequências fazem parte da própria ideia de justiça. Humanidade não é ausência de punição. Humanidade é impedir que a vítima seja esquecida enquanto discutimos o destino de quem a destruiu.


Nossa empatia também precisa de discernimento. Compaixão sem discernimento deixa de ser virtude e passa a ser confusão moral. Quando ela muda de endereço e passa a proteger prioritariamente quem escolheu fazer o mal, enquanto a vítima se torna apenas um detalhe da discussão, algo se rompe em nossa bússola ética.


Compreender continua sendo um dever da ciência. Responsabilizar é um dever da justiça. Mas nunca podemos permitir que nossa compaixão faça a vítima desaparecer da história.

Enquanto discutimos as razões do agressor, a vítima corre o risco de desaparecer pela segunda vez: primeiro pela violência que sofreu, depois pelo silêncio que a substitui.


É por isso que a compaixão precisa saber onde mora.



Nana Vier, é professora e escritora

 

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