O sujeito oculto nas crises do Hospital Centenário - Por Bado Jacoby
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A crise enfrentada pelo Centro Obstétrico do Hospital Centenário não é um episódio isolado. Ela expõe um problema muito maior, que é o modelo de terceirização adotado na saúde pública brasileira. É uma verdadeira bomba-relógio, que não explode de uma só vez, mas em pequenas crises sucessivas, gerando insegurança permanente para quem mais precisa do sistema de saúde.
A população sofre com atendimentos interrompidos, falta de profissionais e serviços que, em muitos momentos, deixam de funcionar plenamente. Enquanto isso, a administração municipal e a direção do hospital convivem diariamente com as dificuldades provocadas pela ineficiência de empresas contratadas para prestar serviços essenciais.
Há um detalhe que chama atenção: o desgaste político nunca recai sobre a empresa terceirizada. A população sabe quem é o prefeito. Sabe quem é a secretária municipal da Saúde. Sabe quem preside o Hospital Centenário. São essas autoridades que recebem as cobranças, concedem entrevistas e precisam explicar cada crise.
Mas poucos sabem qual é a empresa responsável pelo serviço terceirizado. Poucos conhecem seus diretores, onde fica sua sede ou quem responde pelas decisões que impactam diretamente o atendimento à população. Na prática, cria-se uma situação curiosa: quem presta o serviço permanece praticamente invisível, enquanto quem administra o sistema assume sozinho o desgaste político.
Esse modelo não nasceu agora. Ele foi sendo consolidado ao longo dos anos, impulsionado pelo discurso fácil e com muitas segundas intenções, de que terceirizar significava reduzir custos, aumentar a eficiência e simplificar a gestão pública. Em muitos municípios brasileiros ocorreu exatamente o contrário e São Leopoldo, é um exemplo dessa distorcida realidade.
As terceirizações cresceram significativamente a partir de administrações passadas e foram mantidas por governos de diferentes orientações políticas. Tornaram-se regra na prestação de diversos serviços da saúde.
O resultado, porém, está cada vez mais evidente: contratos caros, fiscalização insuficiente, cláusulas que muitas vezes não estabelecem mecanismos rigorosos de responsabilização e empresas que, diante de falhas na prestação dos serviços, sofrem consequências muito menores do que o prejuízo causado à população.
Quando o sistema funciona, quase ninguém percebe quem executa o serviço. Quando ele falha, quem paga a conta é o governo de plantão.
É preciso reconhecer que a atual administração iniciou um processo de realização de concursos públicos justamente para reduzir essa dependência das terceirizações. É um caminho que merece ser observado, porque fortalece a presença de servidores efetivos em áreas estratégicas da saúde.
É necessário repensar profundamente o modelo de contratação adotado pelo poder público. Não apenas sob o aspecto financeiro, analisando custo e benefício, mas principalmente quanto à responsabilização das empresas contratadas.
Contratos públicos precisam estabelecer metas claras, fiscalização permanente e sanções efetivas para casos de descumprimento. Empresas que assumem serviços essenciais devem responder, com a mesma intensidade, pelos prejuízos causados quando não cumprem suas obrigações.
Hoje, as terceirizadas parecem ocupar o papel de sujeitos ocultos dessa crise, mesmo sendo as maiores responsáveis.
Estão presentes em praticamente todas as discussões sobre a saúde pública, mas raramente aparecem como protagonistas quando os problemas vêm à tona.
O ônus político, entretanto, está posto.
Daqui a alguns anos, dificilmente alguém lembrará o nome dos diretores das empresas terceirizadas ou de quem administrava esses contratos. Mas o nome do prefeito, da secretária de Saúde e dos gestores públicos permanecerá na memória da população. E, como a história demonstra repetidamente, essa memória costuma chegar junto com as urnas.
Bado Jacoby, é repórter e apresentador da Start Comunicação
























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