top of page

O tempo em arquibancadas diferentes - Por Magali Schmitt

A Copa 2026 acabou e já estamos mirando 2027. Depositando nos pés da seleção feminina a responsabilidade de aquietar nossa angústia. Estamos órfãos de títulos no futebol há tempo suficiente. Mas quero acrescentar aqui um detalhe dramático, que essa é a minha função: não estamos conseguindo produzir novos ídolos. Será uma safra ruim? Estamos falhando como torcedores, como sociedade ou é mais amplo? Às vezes penso que apenas não percebemos que a dinâmica do mundo é outra. Os heróis mudaram de profissão, de endereço. Migraram para outras áreas para além do esporte. É uma teoria.


Houve um tempo em que usar a camisa canarinho era quase como vestir uma capa de super-herói. E as crianças, que antes decoravam a casa de verde-amarelo à espera dos jogos, hoje conhecem outra realidade: quem está na tela são influenciadores do outro lado do planeta, youtubers, criadores de conteúdo e jogadores que atuam em ligas estrangeiras. A admiração não tem mais um CEP em comum. Ela se espalhou.


Talvez o problema nem seja a falta de talento. Nunca houve tanta gente extraordinária fazendo coisas extraordinárias. O que desapareceu foi o consenso. Antes, quase todos olhavam para o mesmo lugar. Agora existem milhares de palcos, cada um iluminando um personagem diferente. A atenção foi pulverizada, quando uma das fórmulas para se criar um grande ídolo é justamente o contrário.


Por outro lado, também não permitimos que alguém permaneça no pedestal por muito tempo. A velocidade com que se admira alguém é a mesma com que se julga. Um deslize, uma frase mal colocada, uma derrota, e o foco se volta imediatamente ao próximo. Talvez estejamos menos interessados em heróis do que em novidades. A idolatria parece ter adotado o prazo de validade das redes sociais.


Pode ser que eu esteja completamente enganada. Que os ídolos não tenham desaparecido. Apenas tenham deixado de ser universais. Cada geração escolhe os seus, o algoritmo confirma a escolha e seguimos vivendo em arquibancadas diferentes. Talvez seja por isso que a saudade daqueles domingos de futebol remeta a um tempo em que, por noventa minutos, o país inteiro ainda conseguia torcer e vibrar pela mesma história.












Magali Schmitt, é escritora e jornalista.

WhatsApp Image 2025-04-10 at 18.55.37.jpeg
bottom of page