Obrigado por me tornar pai - Por Nana Vier
Eu ainda estava no quarto do hospital quando a enfermeira trouxe a Ana. Peguei nossa filha no colo para amamentá-la e, no meio daquela mistura de cansaço, emoção e absoluta novidade, ouvi meu marido dizer uma frase que nunca esqueci: “Obrigado por me tornar pai.” Naquele instante, nenhum de nós conhecia a dimensão daquelas palavras. Eu acabara de me tornar mãe e ele, pai. Hoje percebo que aquela frase, dita diante de uma menina recém-nascida, acabou se tornando uma espécie de compromisso que ele cumpriria ao longo da vida.
Desde o início, fez questão de participar das rotinas da filha. Lembro de como ficava chateado quando éramos convidados para alguma festa ou evento em que crianças não podiam ir. Para ele, nossa filha não era alguém que precisava ficar de fora da nossa vida para que pudéssemos vivê-la. Talvez por isso tantas das minhas lembranças tenham nós três juntos. Havia também as cenas comuns, aquelas que ninguém fotografa: a paciência para ensiná-la a andar de bicicleta, correndo ao lado até conseguir soltar a mão, e os intermináveis temas da escola, esses nem sempre tão pacientes assim, com direito a dramas, discussões e algumas choradeiras que hoje viraram motivo de risada.
Quando chegou a adolescência, vieram as festas e as madrugadas. Inúmeras vezes ele levantou para buscá-la, sem reclamar, e quase sempre voltava com o carro cheio de amigas. Se algum outro pai se oferecia para fazer a carona, ele preferia ir. Fazia questão. Talvez a Ana enxergasse apenas o pai esperando no carro, mas eu via naquele gesto uma mensagem que nunca precisou ser dita: vá, divirta-se, viva suas experiências, porque na hora de voltar estarei aqui. Sempre achei bonita essa forma de cuidado que não impede os filhos de conhecerem o mundo, apenas garante que tenham para onde voltar.
O tempo passou, a menina cresceu e as necessidades mudaram. As caronas deram lugar às conversas, os temas da escola foram substituídos pelas escolhas da vida adulta e os conselhos passaram a dividir espaço com o respeito pelas decisões dela. Filhos crescem e talvez uma das tarefas mais difíceis dos pais seja aprender a continuar por perto sem ocupar todos os espaços. É quase como ensinar a andar de bicicleta outra vez: primeiro seguramos com força, depois corremos ao lado e chega o dia em que precisamos soltar. O amor permanece, mas aprende uma nova maneira de acompanhar.
Hoje, quando meu marido fala da filha, há um brilho nos olhos que entrega tudo. Orgulho, admiração, saudade e um amor que não precisa de grandes discursos. Eu, que acompanhei essa história desde aquele quarto de hospital, finalmente compreendo a frase que ouvi tantos anos atrás. Tornar-se pai aconteceu naquele dia. Ser pai foi o que ele escolheu fazer em todos os dias que vieram depois.
Neste Dia dos Pais, penso especialmente nisso. Paternidade não se mede apenas pelos grandes momentos, mas pela soma das pequenas presenças: uma bicicleta segurada pela garupa, um tema feito entre lágrimas, uma conversa na hora certa, uma madrugada esperando o telefone tocar, um carro estacionado na porta de uma festa. No fim, talvez os filhos não se lembrem de tudo o que fizemos por eles. Mas certamente guardarão a sensação de saber que, quando olhassem para trás, havia alguém ali.

Nana Vier, é professora e escritora

























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