Os "aspones" e os desgastes que nenhum governo precisa enfrentar - Por Bado Jacoby
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Administrar uma cidade do porte e da complexidade de São Leopoldo nunca foi uma missão simples. O prefeito Heliomar Franco e sua equipe convivem diariamente com uma longa lista de desafios que vai desde demandas estruturais e financeiras até questões relacionadas à saúde, educação, segurança, mobilidade urbana e assistência social. São problemas pequenos, médios e grandes que exigem respostas rápidas, capacidade de gestão e habilidade política.
Mas existe um tipo de problema que não aparece nas planilhas orçamentárias nem nas estatísticas oficiais. É o problema invisível, criado dentro da própria máquina pública.
Toda administração eleita traz consigo um grupo de pessoas técnicas e preparadas para tocar o dia a dia e fazer a engrenagem funcionar. São servidores e gestores que assumem a responsabilidade de resolver conflitos, cumprir metas e enfrentar crises. Mas, junto com esse núcleo, invariavelmente vem o pacote das alianças políticas e dos compromissos assumidos durante a campanha. E é justamente nesse pacote que costumam embarcar eles e elas: os famosos "aspones", um verdadeiro pesadelo para qualquer gestor público. Em muitos casos, chegam ao governo não pela capacidade técnica, mas por relações políticas, pessoais ou circunstanciais, ocupando espaços para os quais não possuem o preparo necessário e criando problemas que acabam recaindo sobre toda a administração.
Esse fenômeno não é exclusividade de São Leopoldo ou dessa gestão. Em maior ou menor grau, está presente em praticamente todas as administrações públicas. O problema é que esses personagens costumam passar despercebidos até o momento em que cometem algum erro que acaba recaindo sobre toda a gestão. Uma fala inadequada, uma postura incompatível com o cargo ou uma atitude precipitada pode gerar um desgaste muito maior do que o próprio fato em si.
O episódio registrado durante uma reunião do Conselho Municipal dos Povos Tradicionais de Matriz Africana de São Leopoldo (COMPOTMA) ilustra exatamente esse cenário. A postura atribuída a uma figura ligada ao Poder Executivo Municipal acabou atingindo diretamente a entidade e seus membros, levando o conselho a divulgar uma manifestação pública de repúdio aos acontecimentos. Mais do que um conflito pontual, situações como essa acabam criando um desgaste institucional que poderia ser perfeitamente evitado.
E talvez esse seja o maior prejuízo. O atual governo, contrariando até mesmo algumas expectativas iniciais, vem conseguindo construir canais de diálogo com diferentes segmentos da sociedade organizada, incluindo conselhos municipais, entidades representativas e movimentos sociais. Essa aproximação exige tempo, disposição para ouvir e respeito às instituições.
Quando uma pessoa sem o preparo adequado atua em nome da administração e protagoniza episódios que geram constrangimento, o desgaste deixa de ser individual e passa a atingir toda a gestão. Em política, dificilmente a opinião pública separa o comportamento de um representante da imagem do governo que ele integra.
Administrar uma cidade já exige lidar diariamente com limitações financeiras, cobranças da população, disputas políticas e problemas estruturais históricos. Acrescentar a isso a necessidade de apagar incêndios provocados por auxiliares despreparados significa criar dificuldades que poderiam ser evitadas com critérios mais rigorosos na composição das equipes.
O episódio envolvendo o COMPOTMA pode servir como um alerta. Não apenas pela repercussão do caso em si, mas porque evidencia que os chamados "aspones" continuam sendo um problema silencioso dentro da administração pública. E quando esses personagens passam a agir como se fossem protagonistas, embalados por uma falsa sensação de poder ou por discursos de ocasião, os riscos aumentam ainda mais.
No fim das contas, um governo não é avaliado apenas pelas obras que entrega ou pelos programas que implementa. Também é julgado pelas pessoas que escolhe para representá-lo e pela forma como elas se relacionam com a sociedade.
Em política, muitas vezes, os problemas mais difíceis de resolver não são aqueles que chegam de fora, mas justamente os que nascem dentro de casa.
Bado Jacoby, é apresentador e repórter da Start Comunicação

























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