Passagem do furacão Catarina pelo Sul do Brasil completa 20 anos; confira lições e fracassos que ainda são perceptíveis

Há 20 anos, em 28 de março de 2004, um domingo, o Brasil acordava sob o impacto da notícia de um furacão que havia tocado terra durante a madrugada no Sul do Brasil com mortes e destruição. A tempestade atingiu o Sul de Santa Catarina e o Litoral Norte do Rio Grande do Sul, mas mesmo em Porto Alegre e na Serra houve danos por vento.
O furacão, batizado de Catarina pelo Centro Meteorológico Estadual Catarinense (Ciram), foi responsável por prejuízos de centenas de milhões de reais e uma dezena de mortos. Foi o primeiro e único furacão documentado até hoje no Atlântico Sul e teve intensidade entre o limite superior da categoria 1 e inferior da categoria 2 da escala Saffir-Simpson com vento sustentado ao redor de 150 km/h e rajadas mais fortes.
Catarina foi um choque para a meteorologia, no mundo e, principalmente, para os profissionais brasileiros. Como um furacão poderia ter se formado se a teoria científica afirmava que não era possível sobre o Atlântico Sul?
Embora fosse evidente para a MetSul Meteorologia e outros profissionais antes mesmo de a tempestade tocar terra, meses de debates se seguiram na meteorologia brasileira para classificar o fenômeno. A conclusão, ouvidos especialistas do exterior, foi a óbvia: foi um furacão.
Passados 20 anos do Catarina, nenhum outro furacão se formou na região do Atlântico Sul, apesar de tempestades tropicais, estágio anterior a um furacão, terem se originado na costa do Brasil nos últimos anos.
O desastre de 2004 forçou mudanças, mas nem tudo foi avanço. Hoje, duas décadas depois, há conhecimento maior sobre ciclones tropicais no Brasil e uma capacidade de modelagem numérica de previsão e de ferramentas de monitoramento muito melhores, em grande parte de origem estrangeira. Até uma lista de nomes foi concebida para designar os ciclones atípicos, os subtropicais e os tropicais (furacão é um ciclone tropical).
A Defesa Civil catarinense, por exemplo, se estruturou e se tornou exemplo como a melhor entre os três Estados do Sul. Há ainda maior cultura de alertas e uma maior capilaridade das advertências com o avanço das redes sociais, mesmo que ainda hoje, como em 2004, muitas pessoas não levem a sério os avisos ou descreiam das previsões.
Por outro lado, as boias de monitoramento na costa, tão citadas em 2004, são quase nulas. Seguimos sem saber o que ocorre em mar aberto antes de um ciclone tocar a terra, dispondo-se apenas de estimativas de vento por satélites (já existentes em 2004) e de esparsos relatos de embarcações.
Além disso, os códigos de edificação em cidades costeiras, que também são afetadas por ciclones extratropicais, este um fenômeno recorrente e também capaz de causar ventos destrutivos, jamais foram adaptados para os riscos de vento muito intenso a extremo na costa.
Finalmente, o Brasil se equivoca quando centraliza os alertas e informações dos ciclones atípicos no serviço meteorológico da Marinha, que tem preocupação e competência legal exclusivas para os oceanos, quando estes sistemas não raro causam impactos em terram firme, onde vivem as pessoas – mais da metade da população brasileira vive perto da costa. Os boletins da Marinha são ininteligíveis para a população, que desconhece escala Beuafort de ventos, por exemplo, e tem focos em segurança marítima e não na preservação de vidas e patrimônio no continente.
Por isso, o entendimento da Metsul Meteorologia é que a competência primária para a previsão destes ciclones deveria ser do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), que é o órgão oficial de previsão do tempo do Brasil, e deveria ter uma unidade especializada para prognóstico de ciclones, o que poderia ser feito em parceria com outros serviços regionais como os do Uruguai e da Argentina.
Fonte: Metsul Meteorologia

























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