Pessoas legais têm gavetas emperradas - Por Magali Schmitt
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Hoje passei em frente a uma sapataria e tive um quentinho no coração. Lá dentro, um senhor de idade avançada, como são todos os sapateiros, trabalhava entre prateleiras abarrotadas de bolsas, botas, sandálias e tênis ansiosos para voltar à ativa. Uma profissão que deve desaparecer em breve. Porque não há mais a necessidade de se ter um sapateiro.
Antigamente as coisas eram feitas para a vida toda. O conceito de obsolescência programada estava tão distante quanto a ideia de desfazer da caneca com uma lasca na borda ou daquele sofá com o pé quebrado que a gente escorava com uma lata de tinta e segue o baile. A minha infância foi recheada de adventos em que o provisório permanente ditava as regras. O bombril na antena da TV, o trinco de arame na porta, o prego na tira do chinelo. Não havia necessidade de se desfazer facilmente. Consertar era a primeira opção.
Aí, chegamos ao presente, essa época sem paciência com os defeitos. Se quebra, troca. Se envelhece, substitui. Se fica lento, atualiza. Vale para tudo, de equipamentos a eletrodomésticos, de móveis a roupas e, chega a beirar o absurdo, está se aproximando das pessoas, que também começam a perder a validade na sociedade. Mas se procurarmos bem, ainda vamos achar alguns objetos que escapam desse mecanismo. Uma boneca que embala nossas memórias, a coleção de bolinhas de gude herdada do avô, a panela de ferro da mãe, os kits de modelismo com cheiro de tarde fria e café com pão caseiro.
Essas peças, para mim, são uma forma silenciosa de resistência, uma biografia involuntária de várias histórias que se somaram e vieram juntas até aqui. São arquivos domésticos que falam de amor, que costuram o tempo e, por isso, se tornam insubstituíveis. Estão ali, guardados, especialmente por causa de suas imperfeições. Se desfazer deles seria apagar lembranças. Por isso, desconfio de quem tem tudo funcionando cem por cento em casa. Pessoas legais têm uma gaveta emperrada, uma mesa com o tampo arranhado e uma pantufa furada no dedão. Não é desleixo. Cada um desses itens armazena momentos incríveis de felicidade.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.
























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