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Por que todo mundo está resgatando fotos de 2016 e o que isso revela sobre nós? - Por Nana Vier

De repente, 2016 voltou. Não como data no calendário, mas como refúgio emocional. Nas redes sociais, pessoas comuns e figuras públicas começaram a resgatar fotos antigas, legendas nostálgicas, memórias editadas como se aquele ano tivesse sido um tempo mais simples, mais leve, mais feliz. Como se o passado fosse um lugar seguro onde ainda sabíamos quem éramos.


A pergunta não é por que 2016 parece melhor. A pergunta é: por que o presente anda tão difícil de habitar?


A nostalgia nunca foi inocente. Ela escolhe o que lembrar e silencia o que doeu. Não lembra das crises, das incertezas, das violências daquele mesmo tempo. Lembra do corpo mais jovem, das expectativas ainda intactas, da sensação de futuro aberto. O passado vira um álbum bem editado e o presente, um rascunho confuso.


Vivemos uma era de excesso: de informação, de opinião, de urgência. Tudo é rápido, performático, comparável. Não basta viver — é preciso mostrar. Não basta errar — é preciso justificar. Não basta existir — é preciso render. Nesse contexto, olhar para trás é uma forma de descanso. Um jeito de dizer: “houve um tempo em que eu não precisava dar conta de tudo”.


E confesso: eu mesma pensei em procurar imagens minhas de 2016. Quis ver meu rosto de antes, o corpo de antes, as certezas que eu acreditava ter. Quis conferir se aquela versão de mim era mesmo mais leve — ou se a leveza estava apenas no fato de que, naquela época, eu ainda não carregava todas as perguntas que hoje carrego. Talvez o impulso de revisitar o passado seja menos sobre saudade e mais sobre busca de pertencimento.


Pasmem: depois de procurar, comparar, olhar com calma, descobri que estou melhor em 2026 do que em 2016. Não mais jovem, não mais ingênua, não mais leve no sentido superficial da palavra — mas mais inteira. Mais consciente dos meus limites, menos refém da aprovação alheia, mais capaz de sustentar silêncios e escolhas. O passado parecia bonito, mas era frágil. O presente, embora mais exigente, é mais verdadeiro.


Há algo de profundamente humano nesse gesto. Não é vaidade. É tentativa de reconhecimento. Olhar para quem fomos para tentar entender quem nos tornamos. O problema começa quando a lembrança vira comparação injusta, quando usamos o passado como régua para medir o presente e, quase sempre, o presente perde.


Mas há um risco silencioso nisso. Quando transformamos o passado em abrigo permanente, deixamos de enfrentar o presente. A nostalgia, quando exagerada, não cura a ansiedade — adianta a fuga. Ela cria a ilusão de que o problema está no tempo atual, quando muitas vezes está na forma como nos relacionamos com ele.


Talvez o desconforto não seja com 2026, mas com a maturidade que ele exige. Em 2016, muitos de nós ainda podíamos errar sem tanta culpa, adiar decisões, acreditar que alguém resolveria depois. Hoje, as escolhas cobram preço. E assumir responsabilidades nunca foi uma experiência confortável.


O curioso é que, enquanto glorificamos o passado, seguimos reproduzindo no presente os mesmos mecanismos que nos cansam: comparação constante, validação externa, pressa crônica. Queremos a leveza de antes, mas insistimos na lógica que nos pesa agora.


Talvez a pergunta mais honesta não seja “quando foi que tudo deu errado?”, mas “quando foi que começamos a ficar mais fortes — e confundimos isso com perda?” O passado pode ser lembrança. mas o presente, se bem vivido, é conquista.


Nana Vier, é professora e escritora

 

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