top of page

Precisamos de novos heróis - Por Magali Schmitt

O mundo parou por algumas horas, na quinta-feira, para ver um brasileiro “dropar” o paredão do Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF) de Porto Alegre e quebrar o recorde mundial de maior descida de uma megarrampa. Foram 70 metros de pura coragem, garra e determinação. Durante as consecutivas descidas, começando em 55 metros, ele conseguiu um feito incrível que vai muito além de entrar para a história do skate. Sandro Dias, o Mineirinho, que nem é de Minas (!), nos fez esquecer que lá fora há guerra, fome e que atravessamos um momento conturbado do nosso país.


Foi uma ação de marketing, sim, mas foi também uma redenção. Nos mostrou o quanto estamos necessitados de heróis, de pessoas que nos representem de fato. Não entendo nada deste esporte, mas prendi a respiração a cada nova descida, como se fosse eu mesma quem estivesse ali, prestes a quebrar um recorde e sentindo emanar a vibração da torcida ao longe. Naquele momento todos nós éramos o Mineirinho, o lutador, que não se rende, o cara que supera seu limite e comemora usando nossa expressão tão caseira, “bah, tchê, tri louco!”, numa demonstração sensível de carinho e respeito à terra que o acolheu para compartilhar essa loucura.


Sim, foi tri louco.


Claro que somos bairristas. Quem não seria numa hora dessas? Mas é mais que bairrismo. É ser brasileiro. É ser do bem, ter empatia, comemorar a vitória do outro, que no final das contas é a nossa vitória como nação. Numa quinta de sol de primavera, com o clima mais lindo que o Rio Grande do Sul pôde oferecer, o Mineirinho nos devolveu a esperança. A esperança em dias melhores. Mostrou ao planeta quem a gente é. Nos representou.


Deu até para esquecer que o parlamento tentou nos dar uma rasteira, freada em tempo pelo clamor das ruas e o bom senso que, por vias tortas e interesses (ou não), vigorou. Que estamos rachados brigando pelo que cada lado entende por liberdade de expressão e censura, o certo e o errado. Que o Banco Central projetou para 2026 um crescimento menor ainda para o PIB brasileiro, de 1,5% — o pior resultado em seis anos.  Que só existe esquerda e direita e quem não se encaixa em um deles não é ouvido nem considerado.


É pouco, é quase nada, mas é um começo. Quando percebemos que ainda somos capazes de vibrar, de nos unir, mesmo que seja por poucas horas, para torcer pela mesma causa, relembramos que somos muito mais que ideologias. É disso que falo. Desse brilho, esse orgulho de pertencer. Me emocionei demais vendo o Mineirinho “cair” daquela rampa, por tudo o que significou. É desse tipo de heróis que precisamos. Gente de verdade que é igual a gente, que nos representa onde estiver.


Ele ganhou dinheiro para fazer isso? Deve ter ganhado, com certeza. É merecido, afinal, é a sua profissão. O patrocinador fez por bondade? Claro que não, o mundo é capitalista e uma ação assim vale mais do que mil campanhas publicitárias. Mas o que sentimos é genuíno, não podem nos tirar. Aquela sensação de que ainda vai dar certo, de que o Brasil tem conserto, que temos força para dropar tudo o que vem pela frente. E que nossos heróis não vão morrer de overdose e nossos inimigos não vão estar no poder. 


Magali Schmitt, é Jornalista e autora

Comentários


BANNER LATERAL 1230X1020px carnaval 2026
WhatsApp Image 2026-03-09 at 15.32.11 (1)
banners-brique-marco-desktop
IMG_4264
Manuela Start - 1
BannerSite_1230-x-1020
Técnico em Desenvolvimento de sistemas (1)
START-MULHERES-CEPROL-1230-1020
WhatsApp Image 2025-04-10 at 18.55.37.jpeg
bottom of page