Quando a pátria cabia numa manhã de setembro - Por Magali Schmitt
O papel crepom verde e amarelo repousava sobre a mesa. Estava com sono e precisava descansar. Mas, antes de me deitar, precisava recortá-lo em tiras para enfeitar as rodas da bicicleta, alternando entre os raios. Também pretendia amarrar algumas daquelas fitas nos dois lados do guidão. Criava um efeito bonito, quase como um sonho. No ano anterior, eu tinha desfilado com um bambolê, fazendo piruetas. Estava na moda. A roupa amarela tinha sido feita com esmero pela costureira. A cacharrel branca era um pouco inferior à qualidade das blusas das colegas, mas, de longe, ninguém percebia.
O Sete de Setembro começava meses antes. Tinha ensaio, combinação de roupa, expectativa, recomendações para não chegar atrasada e aquela ansiedade boa de quem sabia que, por algumas horas, as ruas seriam nossas. As escolas se organizavam, as bandas afinavam os instrumentos, as famílias escolhiam um lugar na calçada. Desfilar era coisa séria. A gente marchava tentando manter o passo, procurando conhecidos entre as pessoas e segurando a vontade de sorrir quando alguém gritava nosso nome.
Não sei se entendíamos exatamente o que significava a pátria. Talvez não. Para mim, ela cabia naquela manhã: na bandeira erguida, no hino que a gente sabia de cor, no uniforme bem passado, no orgulho dos pais assistindo da calçada. Não havia grandes discursos dentro da minha cabeça de criança. Verde e amarelo eram apenas cores que pertenciam a todos. A bandeira era um símbolo que se respeitava, como tantas outras coisas que aprendíamos sem precisar escolher um lado.
Hoje, quando chega setembro, às vezes me lembro mais do papel crepom do que do desfile. Das tiras verdes e amarelas atravessando os raios da bicicleta, da roupa separada na véspera, da cidade esperando aquela manhã. O tempo levou o bambolê, a cacharrel, a bicicleta enfeitada e, também, uma certa inocência em torno daqueles símbolos. Ainda assim, gosto de voltar por alguns instantes àquele Sete de Setembro dos anos 1980. Não para procurar nele um país que talvez nunca tenha existido, mas para reencontrar a menina que acreditava que a pátria podia ser simplesmente uma rua cheia de gente, uma bandeira ao vento e uma bicicleta vestida para festa.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.

























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