Quando a tragédia vira palco para o preconceito - Por Andressa Brunner Michels
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- 18 de mai.
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Na última quinta-feira, 14 de maio, um acidente na BR-116, em Novo Hamburgo, tirou a vida de três pessoas: Neila Patrícia Gomes de Medina, Débora Juliana Marques e a filha do casal, Cecília, uma bebê de apenas 1 ano. Uma tragédia que, por si só, já deveria ser suficiente para despertar silêncio, respeito e empatia.
Mas não foi isso que aconteceu.
Como jornalista, publiquei a notícia no portal e na rede social. No título, usei a palavra “casal” para me referir às duas mulheres. Porque era exatamente isso que elas eram: um casal. Uma família. Duas pessoas que dividiam uma vida e uma filha.
O que mais me chocou não foi apenas a quantidade de comentários preconceituosos, mas a naturalidade com que eles surgiram. “Casal onde?”, “Casal é homem e mulher”, “A mídia está errada”, diziam alguns. Em um portal de alcance nacional, os comentários ficaram ainda mais cruéis: “Pena pelo bebê, porque LGBT eu não ligo”.
E então eu me perguntei: o que está acontecendo com as pessoas?
Três vidas foram perdidas. Uma criança morreu. Uma família inteira acabou em segundos. Ainda assim, muita gente conseguiu olhar para essa tragédia e transformar dor em disputa ideológica, religiosa e moral.
Em nenhum momento a matéria defendia uma pauta política. Não era um debate sobre opinião. Era uma notícia sobre vidas humanas interrompidas de forma brutal. E, ainda assim, houve quem sentisse mais incômodo pela palavra “casal” do que pela morte de uma criança.
Alguns tentaram justificar dizendo que “a culpa é da mídia”. Mas se fossem um homem e uma mulher, ninguém questionaria o uso da palavra. O termo só virou problema porque eram duas mulheres. E isso precisa ser dito com honestidade.
Outros recorreram à religião para sustentar ataques e comentários desumanos. Eu sou uma pessoa que ama Jesus e estou aprendendo mais sobre sua palavra todos os dias. E justamente por isso, tenho convicção de que Cristo jamais estaria em uma caixa de comentários espalhando ódio para uma família destruída pela dor.
Jesus acolhia. Consolava. Amava. Tratava pessoas como pessoas.
É impossível falar em fé sem falar em empatia.
Não se trata de concordar ou discordar da vida do outro. Trata-se de humanidade. De entender que existe um momento em que qualquer diferença deveria ficar pequena diante da dor.
Fiquei imaginando os familiares lendo aqueles comentários em meio ao luto. Fiquei pensando que, provavelmente, Neila e Débora enfrentaram preconceitos durante a vida inteira, e que, mesmo depois da morte, ainda precisaram ser alvo dele.
Isso diz muito sobre a sociedade em que estamos vivendo.
Talvez a reflexão que fique seja simples: quem estamos escolhendo ser? Pessoas que usam qualquer oportunidade para atacar, diminuir e odiar? Ou pessoas capazes de sentir a dor do próximo, independentemente de quem ele seja?
Porque, no fim, antes de qualquer rótulo, ideologia ou opinião, estamos falando de seres humanos. E humanidade nunca deveria ser algo tão difícil de praticar.

Andressa Brunner Michels, é jornalista.
























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