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Quando faltam argumentos, atacam a mulher - Por Nana Vier

Existe uma linha que separa a crítica política do ataque pessoal. E ela não deveria mudar de lugar conforme o lado em que estamos. Em períodos eleitorais, os embates ficam mais duros, as diferenças aparecem e os candidatos passam naturalmente pelo julgamento público. Faz parte da democracia. O que não deveria fazer parte dela é transformar uma mulher em alvo de ataques à sua imagem, à sua reputação e à sua dignidade simplesmente porque decidiu ocupar um espaço de poder. Quando a discussão deixa as propostas e procura atingir a mulher, a política já ultrapassou seus limites.


Simone Dutra, primeira-dama de São Leopoldo e candidata a deputada federal, não surgiu na política agora. Há muitos anos atua na vida pública, passando por diferentes governos e espaços institucionais no Município, no Estado e em Brasília. Mais recentemente, esteve à frente da Secretaria de Desenvolvimento Social e buscou na capital federal mais de R$ 20 milhões em recursos para São Leopoldo por meio de emendas parlamentares. Acumulou experiência, construiu relações e tornou-se presença reconhecida na vida pública leopoldense. Também teve papel fundamental na trajetória política do prefeito, delegado Heliomar Franco, participando ativamente da construção do projeto que chegou à Prefeitura. Agora, ao apresentar seu próprio nome ao eleitor, assume um novo capítulo dessa trajetória.


E existe muito a ser discutido sobre sua candidatura. Simone apresentou propostas para proteção às mulheres, atendimento oncológico, centros-dia para idosos, diagnóstico e atendimento às pessoas neurodivergentes, qualificação profissional de jovens, garantias aos motoboys, reconstrução e prevenção de enchentes e proteção animal. Concorde ou discorde. Questione a viabilidade, as prioridades, os recursos necessários e os resultados esperados. É sobre isso que uma campanha deveria falar.


O que não é aceitável é trocar esse debate por insinuações de caráter sexual. E isso não é novidade. Durante o governo Dilma Rousseff, circularam adesivos para serem colocados na abertura do tanque de combustível dos carros. Dilma aparecia de pernas abertas e a mangueira era posicionada entre elas. Sou de direita desde que me entendo por gente. Nunca votei em Dilma. E aquilo me indignou. Minha posição política não me impedia de reconhecer o óbvio: aquilo era vil.


Defender o respeito às mulheres apenas quando elas pensam como nós não é defender mulheres. É escolher quais delas consideramos merecedoras de respeito. Simone é bonita, inteligente e articulada. E mulheres assim ainda despertam um tipo conhecido de ataque. Quando conquistam visibilidade, poder e voz própria, surgem insinuações sobre como chegaram até ali, como se competência, trabalho e articulação não fossem explicações suficientes. E me espanta ainda mais encontrar mulheres rindo, compartilhando e aplaudindo esse tipo de conteúdo.


A inteligência artificial tornou esse cenário ainda mais perigoso. Hoje é possível fabricar imagens, vozes e situações que nunca existiram e entregá-las ao público com aparência de realidade. E meios de comunicação precisam compreender o tamanho da responsabilidade que assumem quando reproduzem ou dão alcance a conteúdo dessa natureza.


Simone escolheu disputar uma eleição e, como qualquer candidata, deve ser questionada. Critiquem suas propostas. Confrontem suas ideias. Cobrem resultados. Questionem sua atuação. Mas parem de usar o fato de ela ser mulher como argumento.

 

Nana Vier, é professora e escritora

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