Quando São Leopoldo cabia (e cabe) no meu encantamento - Por Daniela Bitencourt Andara
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Caminhando pela Rua Independência (agora tão bonita, moderna e diferente) de repente, me deu um flashback.
Ah… que saudade.
Saudade de quando eu era pequena e a cidade tinha um tamanho diferente dentro de mim. Porque infância não mede ruas em metros, mede em encantamento.
Naquele tempo, se houvesse um casamento ou um aniversário de 15 anos o mundo se abria diante dos meus olhos e esse mundo tinha nome: Casa Mena.
Não tinha como errar. Para mim, aquilo era um shopping inteiro. Enorme, mágico, com possibilidades infinitas. Entrava de mãos dadas com a minha mãe e saía de lá com a sensação de que tinha atravessado um outro mundo.
Mas, se o motivo da compra de roupa era “porque as outras já não serviam mais”, o destino era mais pragmático: Lojas Incosul ou a clássica Marisa. Com muitas sorte saia com roupinhas da Brotoeja. Sem glamour, sem muita escolha, mas com aquela certeza silenciosa de que era o que o dinheiro dava, e estava tudo bem.
Agora… sapato, sandália ou tênis? Ah, isso era território sagrado: Loja Neves.
Era lá que minha mãe encontrava o que realmente importava: preço acessível, atendimento camarada e um crediário que parecia abraçar a família inteira.
Para ela, perfeito.
Para mim… uma leve tragédia.
Porque na pré-adolescência, tudo o que eu queria era um tênis “transado”, de "marca", daqueles que gritavam pertencimento. E, bom… não era exatamente isso que eu encontrava por lá. Mas aceitava. Porque, no fundo, também havia carinho e cuidado naquele jeito simples de escolher.
E, no meio desses passeios, havia um sabor que eu sempre queria provar: passar na Confeitaria Central.
Era lá que existia, sem nenhuma dúvida, a melhor mil-folhas do mundo. O pedido para a minha mãe, era quase sempre atendido. Talvez porque ela soubesse que algumas alegrias não se deve negar a uma criança.
E então vinha o Natal…
Era impossível passar na Independência e não ficar fissurada nas vitrines que competiam entre si. A mais bonita na minha opinião (e de muitas pessoas!) era da Ferragens Feldmann. Na vitrine tinha o famoso Papai Noel com sua varinha, como se fosse capaz de lembrar de toda desobediência ou de transformar qualquer desejo em realidade. E eu acreditava. Com uma fé bonita, inteira, dessas que a gente só tem quando ainda não aprendeu a duvidar.
Ah! Lembro, também, da minha primeira vez no Cine Independência.
Fui assistir a um filme de Os Trapalhões. Talvez eu nem lembre exatamente da história, mas lembro da sensação. Aquela mistura de encantamento, risadas soltas e a impressão de que o mundo podia caber dentro de uma tela.
Não propriamente na Rua Independência, mas não posso esquecer que, no inicio dos anos 90, já estudante de magistério, comecei a ensaiar minhas pequenas rebeldias: vez ou outra “matava aula” para ir ao Sinos Shopping São Leopoldo (que, na época, era praticamente um acontecimento histórico).
E, nele, estava o Supermercado Real, com o pão francês mais gostoso da cidade. (Na minha opinião… e na do meu pai também, que nisso nunca discordava de mim.)
Os finais de semana tinham gosto de liberdade. Eu e as amigas circulávamos entre a Sorveteria Fratello e a Sorveteria Dim Dom Del, rindo, falando de tudo e de nada, como se o tempo fosse um elástico infinito que nunca iria arrebentar.
E então vieram os últimos anos da década, já quase adulta ou pelo menos tentando ser.
Minhas saídas ganharam outro ritmo, mas ainda com a supervisão silenciosa do meu pai, que me levava e buscava como quem diz: “vai, mas se precisar, estou aqui”.
E eu ia. Me divertia, paquerava, descobria o mundo no Expresso 356 e no Manara, acreditando que cada noite era única, como se a vida fosse sempre começar dali.
Depois, já namorando, os encontros ganharam sabor de rotina boa no Água na Boca, (do André e da Márcia) que mais tarde virou o Bar do André.
E, com isso, vieram outras lembranças, outras versões de mim.
Hoje, andando por essa mesma rua, percebo que São Leopoldo mudou (muito!).
Mas a verdade é que quem mais mudou fui eu.
Porque a cidade continua aqui, só que aquela menina que via shopping dentro de loja, futuro dentro de vitrine e felicidade dentro de um pão francês quentinho…
essa agora mora só na memória.
E, ainda assim, de vez em quando, ela dá um jeito de sair para passear.
Assim, do nada.
No meio da Rua Independência.

Daniela Bitencourt Andara, é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de São Leopoldo
























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