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Quase 18 anos depois, três réus vão a júri por ataque a judeus em Porto Alegre a partir desta terça

28 de mar. de 2023
5 min de leitura

Imagem: Fernando Gomes/ Agência RBS.

Em 8 de maio de 1945, o maior conflito armado da história mundial, que deixou um saldo de dezenas de milhões de mortos, chegava ao fim. A data, marcada como o Dia da Vitória, representa a rendição definitiva da Alemanha nazista durante a Segunda Guerra. Embora não seja possível precisar, dada a falta de registros, os principais centros de documentação do Holocausto estimam que pelo menos seis milhões de judeus tenham sido assassinados nesse período.


Sessenta anos depois, ­em Porto Alegre, em 8 de maio de 2005, três estudantes conversavam em frente a um bar, na esquina das ruas General Lima e Silva e República, no bairro Cidade Baixa. Por volta das 2h, Rodrigo Fontella Matheus, Edson Nieves Santanna Júnior e Alan Floyd Gipsztejn estavam em pé, na calçada, quando foram cercados por um grupo em fúria. Foram agredidos, com socos e pontapés, e dois deles atingidos por golpes de faca. Um deles teve ferimentos mais graves e precisou permanecer hospitalizado.


A polícia concluiu que os jovens foram atacados por um grupo de skinheads, de ideologia neonazista, após serem identificados como judeus, pois usavam quipá, acessório que representa a religião judaica. Nesta terça-feira (27), quase 18 anos após este crime, os últimos três réus vão a julgamento na Capital (veja abaixo o que dizem as defesas e a situação dos demais envolvidos no caso).


No júri, que se inicia às 9h, no Fórum Central, serão julgados Valmir Dias da Silva Machado Júnior, Israel Andriotti da Silva e Leandro Maurício Patino Braun. Eles chegaram a ser presos na época do crime, mas foram libertados cerca de cem dias depois, e atualmente respondem em liberdade. As defesas de Silva e Júnior negam envolvimento deles nos fatos. A defesa de Braun optou por não se manifestar.


Estima-se que que o julgamento se estenda por, pelo menos, três dias, podendo chegar a quatro. ­Isso porque serão ouvidas inicialmente as três vítimas, 11 testemunhas, sendo cinco de acusação e seis das defesas, além de interrogados os réus. No primeiro dia, a expectativa é de que, logo após o sorteio dos sete jurados, sejam ouvidas as vítimas - um dos momentos mais aguardados do júri. Matheus falará por videoconferência, pois não reside mais na Capital.


Em março de 2019, durante o julgamento de outros três réus, Gipsztejn foi o primeiro a falar sobre as agressões sofridas, na mesma data em que o mundo lembrava o fim do Holocausto. Ele contou que foi agredido pelo grupo de skinheads, mas conseguiu escapar correndo para dentro de um bar, antes de ser esfaqueado. O jovem relatou que ficou traumatizado após o ataque.


"Deixei de usar quipá, só voltei a usar em 2012, em Israel", disse no júri.


Já Matheus, que atualmente reside em Israel, falou por mais de uma hora naquele júri, e relatou que estava conversando com os amigos, quando passou a ser espancado.


"Na hora, não senti que estava sendo esfaqueado. Em seguida apaguei", narrou.


Santanna Júnior também foi atingido por golpes de faca e conseguiu escapar e buscar abrigo dentro do bar.


Andamento do júri


É possível que ainda se iniciem neste primeiro dia as oitivas das testemunhas de acusação. Entre elas, estão pessoas que presenciaram o momento das agressões e um policial civil. No segundo dia, devem ser ouvidas as testemunhas restantes, entre elas as que falarão pela defesa dos réus. Ainda na quarta-feira, pode ser que os réus comecem a ser interrogados e que, na quinta, sejam realizados os debates. Como o júri conta com mais de um réu, o tempo inicial tanto para acusação como para defesa será de duas horas e meia, com réplica e tréplica de duas horas cada.


Os três réus respondem por tentativa de homicídio contra Matheus. As agressões sofridas pelos outros dois foram consideradas lesão corporal, e o crime prescreveu, motivo pelo qual eles serão julgados somente pelo ataque a uma das vítimas. No entendimento do Ministério Público, os réus agiram por motivo torpe, que seria somente pelo fato de a vítima ser um judeu, também por meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima. Segundo a acusação, os réus integravam na época do crime um grupo neonazista.


A promotora Lúcia Helena Callegari, que atua na acusação com o promotor Luiz Eduardo Azevedo, afirma que o trio exercia função de liderança no grupo e que pretende comprovar isso no júri, buscando a condenação dos três.


"As provas são cabais. Esse fato foi no dia 8 de maio de 2005, quando se comemorava os 60 anos da queda do Terceiro Reich. Entendo que a ação desse grupo organizado, paramilitar, queria marcar essa data, com essa postura contrária à comunidade judaica. Não foi só aqui em Porto Alegre que ocorreram essas ações. O dia não foi aleatório. Foram skinheads atacando pessoas que estavam de quipá, identificados como judeus", afirma.


Assistente de acusação, a advogada Helena SantAnna afirma que também espera que os três réus sejam condenados pelo crime.


"É muito importante que a mensagem fique clara: crimes como este não podem ficar impunes. Acho preocupante ver que este tipo de agressão causada por preconceito, racismo e intolerância, ocorrido há 18 anos, continue ainda tão atual", diz.


Por fim, serão os sete jurados que decidirão se os réus serão condenados ou absolvidos. Em caso de condenação, caberá à juíza Lourdes Helena Pacheco da Silva, titular do 2º Juizado da 2ª Vara do Júri de Porto Alegre, aplicar a pena.


Contrapontos


O que diz a defesa de Israel Andreotti da Silva


Os advogados José Paulo Schneider dos Santos, Matheus da Silva Antunes e João Augusto Ribeiro Kovalski enviaram nota, na qual sustentam a inocência do cliente e alegam que Israel nunca teve posição de liderança nesses grupos neonazistas. A defesa sustenta que o réu chegou a integrar um grupo, mas se retirou antes de 2005. Confira a nota:


"A defesa de Israel Andreotti da Silva aguarda há quase 18 anos o desfecho deste injusto processo. Adverte-se que, durante o julgamento, serão apresentadas provas da inocência de Israel, sobretudo os áudios constantes no processo, que explicam, de maneira detalhada, a dinâmica e quem foram os verdadeiros responsáveis deste bárbaro crime. Será demonstrando, ainda, que Israel jamais exerceu liderança nos grupos investigados, sendo que a própria denúncia não lhe atribui tal fato. Ademais, será provado que, à época dos fatos, Israel não possuía qualquer tipo de contato ou ligação com as pessoas investigadas. Por fim, esta defesa confia nos Jurados e Juradas do Porto Alegre/RS que, com tranquilidade, responsabilidade e coerência irão desfazer aquele que é o maior e mais longo erro da história do judiciário gaúcho".


O que diz a defesa de Valmir Dias da Silva Machado Júnior


Os advogados Manoel Pedro Castanheira e Gustavo Gemignani enviaram nota, na qual também afirmam a inocência do cliente. Confira:


"A defesa de Valmir Dias da Silva Machado Júnior, por seus procuradores Manoel Pedro Castanheira e Gustavo Gemignani, afirma que será, na defesa em plenário, que se comprovará a total inocência de seu cliente, com a prova já apresentada no processo, desde seu início. Reafirma a total confiança de que será feita a justiça a Valmir."


O que diz a defesa de Leandro Maurício Patino Braun


Procurado, o advogado Rodrigo de Lima Noble optou por não se manifestar sobre o caso.


Outros julgamentos


  • Em 15 de setembro de 2018, Thiago Araújo da Silva e Laureano Vieira Toscani foram condenados por tentativa de homicídio e duas lesões corporais a 13 anos de prisão, e Fábio Roberto Sturm, a 12 anos e oito meses;

  • Em 23 de março de 2019, Daniel Vieira Sperk e Leandro Comaru Jachetti foram sentenciados a 14 anos de prisão. O mesmo Conselho de Sentença desclassificou a tentativa de homicídio imputada a um sexto réu para lesões corporais e foi declarada extinta a punibilidade do crime por prescrição;

  • Cinco réus não foram pronunciados pela tentativa de homicídio e, portanto, não serão julgados pelo Tribunal do Júri.


Fonte: GZH

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