top of page

Quem espera do lado de fora - Por Nana Vier

Estávamos em um bar, com grupo de amigos. A noite era leve, divertida, dessas em que a conversa flui tão bem que o tempo passa sem pedir licença. Foi ali que tive minha primeira experiência com um banheiro unissex.


E não, esta não é uma crônica sobre banheiros.


Quando me levantei, senti um desconforto que nem sei explicar direito. Não era medo. Também não era preconceito. Talvez apenas a insegurança natural diante de algo novo. Virei para o meu marido e perguntei: “Tu vais comigo?” Ele respondeu com a simplicidade de quem nunca transforma cuidado em favor: “Claro.”


Entramos juntos no espaço comum e cada um seguiu para um lado. Quando retornei, ele ainda estava ali. Não havia entrado na cabine dele. Estava parado em frente à minha porta, como quem monta guarda sem fazer alarde. Esperou que eu lavasse as mãos, conferiu com o olhar que eu estava tranquila e só depois entrou para usar o banheiro.


Talvez alguém ache exagero. Talvez alguém pense que foi apenas um gesto automático. Mas eu conheço o homem com quem divido a vida há quarenta anos. Sei que aquela espera não foi distração. Foi escolha.


Vivemos um tempo em que o amor costuma ser medido pelas grandes declarações, pelas viagens surpreendentes, pelos presentes caros e pelas fotografias perfeitas nas redes sociais. Mas, olhando para trás, percebo que os momentos que realmente ficaram na minha memória nunca tiveram plateia.


O amor mora nesses pequenos instantes. Mora em quem diminui o passo para caminhar ao teu lado. Em quem espera tua mensagem dizendo que chegaste bem. Em quem lembra como tu gostas do café. Em quem segura tua mão para atravessar a rua. Em quem percebe teu silêncio antes mesmo que as lágrimas apareçam.


E, às vezes, mora simplesmente em um homem parado diante da porta de um banheiro.

Protegendo. Esperando. Sem fazer discurso.


A maturidade tem dessas coisas. A gente aprende que amor não é quem promete o mundo. É quem faz você se sentir segura dentro dele.


Naquela noite, enquanto voltávamos para casa, fiquei pensando que existem gestos tão discretos que passam despercebidos para quase todo mundo. Mas são exatamente eles que sustentam uma vida inteira.


Porque amar é o lugar onde o outro sempre sabe que encontrará alguém esperando do lado de fora.



Nana Vier, é professora e escritora

WhatsApp Image 2025-04-10 at 18.55.37.jpeg
bottom of page