Retrô, porém conectado - Por Magali Schmitt
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Os anos 1980 voltaram. Ou, quem sabe, nunca tenham ido embora. Estão desfilando pelas ruas nas calças de cintura alta, nos ombros marcados, nos tênis robustos, nas cores fortes, nas câmeras analógicas, nos discos de vinil. Uma estética inteira que voltou a ocupar seu espaço na moda, na música, no cinema e no design. E o mais o incrível é a dicotomia desse retorno. Quem viveu essa época reconhece os códigos. Os que vieram ao mundo muito depois consomem como a maior novidade. Ou seja, é o passado a uma distância segura o suficiente para perder os defeitos e conservar apenas o fascínio.
É que os anos 80 desembarcaram no presente muito bem filtrados. Ainda bem. Ficaram por lá, perdidos em alguma dobra do tempo a inflação, as tensões políticas, o medo da Aids, da Guerra Fria. Voltam em neon, videoclipe, fita cassete e fotografia com grão. Pena que o rock não veio nessa nova proposta. Temos aí uma memória editada, enfim, como quase toda nostalgia. E há até certa ironia no fato de uma geração mergulhada em inteligência artificial e comunicação instantânea demonstrar tanto interesse por objetos mais lentos, imperfeitos e trabalhosos.
Sou obrigada a concordar que há algo de sedutor na ideia de um telefone preso à parede que dispensava justificativa por não ter sido atendido. Chega a ser quase um luxo ser dono da própria vontade, não acham? Apenas não responder ou responder as mensagens no seu tempo sem ninguém reclamar. Evidentemente, aquele mundo não era mais simples. Ainda assim, reinventamos os anos 80 como uma espécie de território anterior à hiperconexão — um passado onde havia mais presença, espera, ócio e talvez até mais tédio.
Será que cada época escolhe no passado aquilo de que sente falta no presente? Sendo assim, além de roupas e objetos, estamos buscando recuperar, também, sensações? É só um pensamento intrusivo jogado para vocês decidirem, que quero compartilhar com alguém essas ideias que me habitam. Estamos sentindo falta da novidade, da surpresa, da privacidade? Curiosamente, temos tudo isso no celular, mas de uma forma diferente. Agora, não botamos mais o vinil para rodar. Fotografamos o toca-discos. Não imprimimos fotos. Postamos a câmera analógica. Estamos transformando a nostalgia em conteúdo. Comemoremos: o passado voltou e os bons tempos estão de volta. Mas precisaram de uma conta nas redes sociais para existir de fato!

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.
























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