Será? - Por Nana Vier
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Outro dia me deparei com uma cena que diz muito sobre o nosso tempo. Um médico, jaleco impecável, postura firme, dessas que a gente aprende a confiar, apontava para frases coloridas na tela enquanto uma música animada tocava ao fundo. No final, quase como quem não quer nada, uma coreografia. Pequena. Contida. Mas presente.
E eu pensei: chegamos aqui.
Não tenho nada contra dançar. Adoro dançar, danço em baile, casamento, em festa de família e até sozinha na cozinha, com a dignidade que só quem está sozinho consegue sustentar. Mas, até onde me lembro, nunca precisei dançar para validar uma formação acadêmica.
Hoje, parece que talvez precise.
Você passa 30, 40 anos estudando, constrói uma carreira, vira referência e, de repente, o algoritmo sussurra: será?
Aliás, essa virou uma palavra perigosa. O tal do será? que aparece no final de frases, acompanhado de um olhar meio desconfiado, como se estivesse revelando algo profundo, quando, na verdade, às vezes só está embalando o óbvio em trilha sonora.
Você passou anos estudando. Será? Você acha que isso ainda funciona. Será?
É quase um novo método científico. Com coreografia.
E não para por aí.
Tem também a filosofia contemporânea resumida em seis palavras: se quiser comprar, pode comprar.
Simples assim. Direto. Sem mediação, sem contexto, sem aprofundamento. Uma espécie de convite à vida sem nuance. Ou você compra, ou você não compra. E, de preferência, decide isso em poucos segundos, enquanto a música toca.
No meio disso tudo, a gente vai aprendendo que não basta saber. É preciso aparecer. E aparecer do jeito certo.
Não é mais só sobre o conteúdo. É sobre o enquadramento, o tempo da fala, o gesto na hora certa, o carisma calculado.
E ninguém estranha.
Pelo contrário. Quanto mais natural parecer, melhor.
A nossa geração, que já atravessou tanta mudança, aprende rápido. A gente saiu do telefone fixo para a chamada de vídeo, do VHS para o streaming, do silêncio da espera para a ansiedade da notificação.
A gente se adapta.
Mas existe uma linha curiosa entre adaptação e uma certa pressa em caber.
Porque há algo levemente desconfortável em ver gente profundamente competente tentando se moldar a formatos que não comportam profundidade. Antes, bastava ser bom. Hoje, parece que é preciso ser leve, rápido e, de preferência, editável.
Fico imaginando como seriam certas mentes brilhantes nesse cenário. Einstein olhando para a câmera e dizendo: a relatividade não é bem assim. Será?
Enquanto aponta para a fórmula.
Darwin explicando a evolução com um corte seco e uma viradinha no final.
Talvez não funcionasse. Ou talvez funcionasse demais.
E isso é o mais inquietante.
No fundo, não é sobre as trends. Elas passam. Sempre passaram.
É sobre o que fica quando a música termina.
Porque, se para sermos vistos precisamos reduzir o que somos a alguns segundos bem editados, talvez valha a pena parar um pouco. Sem trilha, sem legenda piscando, sem roteiro.
E perguntar, com calma, sem precisar apontar para nada:
Precisa mesmo?
Será?

Nana Vier, é professora e escritora
























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