Seus próximos quatro anos por R$ 3,51 - Por Magali Schmitt
Três reais e cinquenta e um centavos é o ônus para quem optou por curtir o domingo em casa e não ir às urnas no dia 04 de outubro. Isso, claro, se a justificativa não convencer a Justiça Eleitoral. Se for aceita, não custa nada. E pode ser feita, inclusive, online, no conforto da sala. Confesso que é um convite tentador. E mais de 33,4 milhões tiveram a mesma ideia — o maior número absoluto de ausências em uma eleição geral no Brasil. Entre os motivos, viagens, problemas de saúde, desinteresse pela política e dificuldades para chegar às urnas.
Eu também estou decepcionada com a política. E, exatamente por esse motivo, fui às urnas cumprir minha obrigação como brasileira e, acima de tudo, exercer meu direito. Porque essa é a única forma racional de mudar algo quando estamos incomodados. Levando em conta os bilhões destinados às eleições de 2026, não há justificativa que justifique. Não votar é aceitar qualquer coisa, qualquer um. É como pedir um Porsche e ganhar uma carroça. Afinal, a potência de ambos vem de cavalos, não é mesmo? E sinto muito — mas é tudo o que eu sinto — se o desempenho não é o esperado: você aceitou o presente de grego. Pode até reclamar, mas qual a força de quem abriu mão de decidir?
Esse número fala muito sobre o país. Talvez seja a hora de rever esse modelo. Quando pagar a multa parece mais vantajoso do que cumprir a obrigação, é preciso refletir. Não sobre o valor da penalidade, mas sobre o valor que damos ao próprio voto. Transformamos uma conquista democrática em uma obrigação burocrática. É curioso que estejamos tão dispostos a discutir os rumos do país, a questionar governos, a condenar políticos e a defender nossas convicções, mas milhões não encontram motivação suficiente para sair de casa e participar da escolha de quem vai governá-los.
Não ignoro o desencanto. Há motivos de sobra para desconfiar dos personagens da política atual. Mas a ausência também tem consequências invisíveis no boleto de R$ 3,51. Democracia não exige entusiasmo. Exige participação, inclusive de quem está insatisfeito. Podemos discutir o voto obrigatório, a representatividade e até a qualidade das opções que chegam às urnas. O que não podemos é confundir desistência com protesto. Afinal, por mais barato que seja não votar, a conta das escolhas políticas chega para todos. Inclusive para quem ficou em casa. Mesmo assim, eu vou. Porque sou de ir. E você?

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.

























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