Sobre RECOMEÇAR e a coragem de continuar - Por Daniela Bitencourt Andara
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Cresci acreditando que RE - COMEÇAR precisa vir acompanhado de grandes anúncios. Como se a vida fosse nos chamar pelo nome completo e gritar: “Atenção! Este é o momento de um novo começo”. Mas isso não acontece. Recomeçar chega como às segundas-feiras ( sem cerimônia e com muitas coisas a serem resolvidas).
Em Minas Gerais, as chuvas não pediram licença e causaram devastação. No Rio Grande do Sul, sabemos bem o som que a água faz quando deixa de ser paisagem e vira tragédia. Ela não segue roteiros. Ela insiste. E quando vai embora, não leva só o que tocou. Leva também a ilusão de que certas coisas eram estáveis, permanentes.
Mas sempre há algo que a água não leva: a resiliência de continuar.
Aqui no Rio Grande do Sul, vimos gente lavando o chão "com essa tal resiliência" que não era conformismo. Era lucidez. Pois não adiantava negociar com o que já tinha acontecido. Era preciso lidar com o que estava ali: materiais de limpeza e um tipo de coragem que não se aprende em curso algum.
Imagino que em Minas Gerais esteja acontecendo o mesmo agora: Alguém criando coragem para recomeçar, abrindo uma janela para o ar circular, estendendo uma roupa que não é só roupa, é um pequeno manifesto para a vida que segue.
E segue mesmo. E, pior, sem pedir nossa opinião.
Trazendo essas reflexões para o nosso cotidiano: é curioso como nos desorganizamos por tão pouco. Um atraso, um plano desfeito, uma expectativa que não se confirma, um espaço que não era seu, convívio com pessoas más e desumanas.... Ficamos, em muitos momentos, ofendidos com a vida. Como se ela tivesse quebrado um acordo. Mas a vida nunca prometeu previsibilidade ou estabilidade. Prometeu possibilidades. Nós, ingenuamente, que necessitamos de controle.
Belchior já sabia disso quando escreveu: “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.”
Não é sobre sobreviver ao que aconteceu. É sobre não permitir que o que aconteceu ou alguém, determine o seu tamanho.
Recomeçar, de verdade, é um gesto de maturidade. Não tem heroísmo nisso. Tem clareza e coragem.
Entendendo que insistir no que já não existe mais é elegantemente uma forma de perder tempo. Aceitando que algumas versões da nossa vida cumpriram seu papel e agora pertencem à memória, ao passado e não ao presente. Não com amargura, mas com respeito.
Há uma beleza firme em quem recomeça. Em quem pega o que sobrou (e sempre sobra algo!) e constrói de outro jeito. Não melhor, não pior. Apenas aquilo que faz teu coração vibrar.
As chuvas levam móveis, paredes, objetos.... As relações tóxicas levam a nossa dignidade. E, ambas, levam também, excessos. E, estranhamente, tristemente, deixam o essencial mais visível.
Fica tudo o que te faz sorrir, fica quem te estende a mão. Fica quem fica. Fica quem insiste.
Recomeçar não é sobre o que se perdeu. É sobre o exato instante em que você percebe que ainda está vivo, e isso, por si só, já é suficiente para começar de novo.
Porque, recomeçar é coragem silenciosa de quem, mesmo depois de tudo, ainda encontra um motivo e um jeito de abrir a porta outra vez.

Daniela Bitencourt Andara, é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de São Leopoldo























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