Um olho no peixe e outro no gato - Por Magali Schmitt
- Andressa Brunner Michels - Jornalista - MTB 19281/RS

- há 2 dias
- 3 min de leitura
O ano que acabou tão rápido quanto começou entrou da mesma forma que todos os outros: com a vida completamente alheia ao movimento do calendário. Tirando a expectativa de ganhar a Mega da Virada, pouca coisa nos abalou. Confesso que, nos últimos dias, me senti uma bola de feno rolando por um terreno árido, perdida entre teorias da conspiração.
Um sopro mais forte e fui parar na ala dos anti-Havaianas. Agora, metade do que dá errado no país é culpa do fabricante das sandálias que, até ontem, eram a paixão nacional: não deformavam, não soltavam as tiras e não tinham cheiro. Não tinham.
Fui entender melhor. Fuçaram nos ancestrais da marca, descobriram ligações suspeitas com um conglomerado bancário. Pessoas que se sentam a uma mesa de doze metros — cercadas de outras igualmente estranhas e de alta periculosidade, que levam multa de trânsito, falam de boca cheia e tiram meleca do nariz no sinal — e decidem: agora vamos criar uma campanha publicitária para acordar a nação e colocar uma metade do país contra a outra.
Sem falar na escolha, a dedo, da atriz do comercial. Aquela. A daquele filme. A que se beneficiou da Lei Rouanet e ganhou um Oscar comprado pelo governo. Realmente, o tipo de gente da qual se deve manter distância. Os sinais estavam ali o tempo todo, para quem quisesse ver. A dominação sendo tramada, a lavagem cerebral em curso, começando pelos nossos pés — e a gente não botou reparo. Mas, finalmente, cometeram um erro. Bem a tempo.
Ufa.
Não fosse esse deslize da Havaianas, quando nos déssemos conta talvez fosse tarde demais. É preciso estar atento. Um olho no peixe e outro no gato. Como dizia o seu Alfredo, nosso jardineiro: hoje em dia é um perigo estar vivo. Sábio e visionário, o seu Alfredo.
Outra lufada de vento e lá vou eu parar no sorteio da Mega, que enfim revelou o sórdido esquema previamente anunciado e, de novo, ignorado por todos: tem caroço nesse angu. E dos grandes. O negócio é tão secreto que se ramifica até na apuração das eleições. Trocando em miúdos, é tudo a mesma coisa.
Ou seja: quem rouba lá, rouba aqui também.
Os fogos nem tinham baixado direito e o espumante ainda corria nas nossas correntes sanguíneas quando começaram a ressuscitar matérias antigas lembrando que o mesmo grupo ligado a um partido político, vencedor em 2019, foi contemplado nesse sorteio. Eis a explicação para o atraso na apuração. Só pode ser. E o detalhe: em nenhum dos dois momentos levaram o prêmio maior.
Canseira.
Se deram ao trabalho de adiar sorteio, fazer todo esse forrobodó público e nem tiveram a competência de ganhar a bolada? Tenham a santa paciência. Na próxima Mega da Virada, caprichem mais.
Porque, se a gente não fica atenta, lá se vai o boi com corda e tudo. No Brasil de hoje, é preciso estar sempre de butuca ligada.
Enquanto isso, numa manobra ao apagar das luzes desse ano louco, o Congresso tentou ampliar em R$ 150 milhões o fundo partidário. Na mesma casa, aprovou um corte de quase R$ 500 milhões no orçamento das universidades federais. Aqui no Rio Grande do Sul, para ficar no exemplo local, são menos R$ 44 milhões para a pesquisa. É o tipo de coisa que não surpreende, mas abala.
O mais incrível foi o silêncio. Nenhum pio. Esperava alguma manifestação dos mesmos que se retroalimentam dessas hipóteses malucas — para as quais sempre há provas irrefutáveis, argumentos inflamados e inconformidade permanente.
Houve boicote às Havaianas, ao cinema, e não vou me admirar se pedirem a apuração manual das loterias. Apostamos em dezembro e saberemos o resultado em março. Mas não nos incomodamos com o nosso bolso sendo saqueado à luz do dia. Seguimos votando mal, esquecendo, ignorando.
Pensando bem, até gostei de ser uma bola de feno vagando por aí. Dá menos trabalho do que ficar no meio desse fogo cruzado. Dá menos trabalho do que enxergar o esforço colossal do brasileiro para defender teses tão sólidas quanto fumaça e não mover um fio de cabelo diante das pautas prementes da nossa sociedade.
Ou talvez eu ainda não tenha alcançado esse nível de evolução que protege da realidade lá fora.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.































Comentários