A atenção, o artigo de luxo da era moderna - Por Magali Schmitt
- Andressa Brunner Michels - Jornalista - MTB 19281/RS

- há 2 dias
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Em outro texto, falei sobre o efeito dumb down e a simplificação crescente do conteúdo que consumimos no streaming e na TV. A lógica é clara: histórias cada vez mais fáceis de digerir, pensadas para que possamos fazer duas coisas ao mesmo tempo — sendo a segunda, quase sempre, mexer no telefone.
Para quem nasceu com o celular como extensão da mão, isso é tão natural quanto acordar com o despertador do smartphone. O aparelho supre praticamente todas as necessidades da geração Z, inclusive — e talvez principalmente — as formas de se relacionar com o mundo.
Essa reflexão, confesso, nasce da observação do cotidiano. Não preciso ir longe: os exemplos circulam aqui em casa. Lutei bastante, que fique registrado, e até reconheço meu mérito — parece que fiz um bom trabalho no meu microcosmo.
Como as camadas da sociedade tendem a operar de maneira parecida, esse laboratório doméstico pode, sim, servir como exercício de análise. Os exemplares que observo representam uma parcela que vive dentro da grande bolha da nossa realidade particular. Mas esse é assunto para outra tese, não para agora.
Agora me interessa o cruzamento entre a simplificação do conteúdo e a geração Z. Eles estão povoando o mundo há, no máximo, três décadas. Não chegaram a vivenciar as grandes produções, os filmes que arrastavam milhões às salas de cinema. Ignoram — no sentido literal — a experiência de um roteiro feito para incomodar, para exigir atenção, provocar reflexão.
Não estou dizendo que não conheçam o cinema. Claro que conhecem. Mas não essa imersão total, quase ritualística, em que o mundo lá fora ficava em stand by por duas horas, às vezes mais. Um lugar onde se entrava de um jeito e se saía de outro. Como não viveram isso, não sentem falta. É impossível ter saudade do que não se conheceu.
Esse artigo é para defendê-los, não interpretem mal.
Sou entusiasta de todos os tempos e acredito que toda época tem seu auge, sua epifania particular. O melhor momento da vida costuma coincidir com o auge da juventude — pouco importa se foi em 1850, 1980 ou 2010. O que realmente pesa é o que acontece do lado de dentro: a intensidade, os níveis hormonais, a sensação de descoberta.
O contexto, claro, interfere — e muitas vezes intensifica. É nessa faixa estreita em que emoção e memória se encontram que as experiências se fixam para sempre.
O problema é que os folders que vendem o melhor de nascer e crescer na geração Z não mostram o que ficou para trás. Mas propaganda é isso: cria vínculos com seu público-alvo e escolhe o que mostrar.
Em outras palavras, estão ludibriando esse pessoal. E não, não é saudosismo. Há muita coisa boa correndo por baixo das pontes atuais. Só gostaria que fosse garantido a eles o direito de conhecer outra possibilidade — não apenas engolir a simplificação como parte inevitável do processo.
Há quem veja a ignorância como bênção. Do outro lado da balança, os que encaram como maldição. Em Fahrenheit 451, Ray Bradbury imagina um mundo de telas, distração permanente e passividade, onde o pensamento crítico é sufocado pelo entretenimento rápido. É uma distopia, claro. Mas como toda boa distopia, incomoda justamente por parecer menos exagerada do que gostaríamos.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.






























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