Camadas - Por Daniela Bitencourt Andara
- Start Comunicação

- 6 de mar.
- 2 min de leitura
Como uma boa libriana, gosto da minha casa sempre muito organizada.
Dias atrás, decidi renovar a minha sala, e entre outros projetos "arquitetônicos e decorativos" pensados por mim, estava pintar o "parapeito" da minha janela. A palavra “parapeito” soa bonita, porque até semana passada eu chamava de “aquela parte ali embaixo da janela”. Convivemos anos com algumas coisas sem saber ao certo seus nomes (se pensarmos bem, acontece também com vários sentimentos).
Eu tinha uma intenção, e ela era simples e muito otimista: abrir a lata, passar o pincel e decretar uma nova fase estética para minha janela. Acreditando sempre no poder transformador das tintas. Pois elas possuem o talento de fingir que o tempo não passou, ou pelo menos, de fazê-lo colaborar.
Para meu espanto a madeira não aceitou e a tinta não fixou.
Ela resistiu!
Então, um profissional me explicou que, antes de qualquer nova cor, seria preciso passar removedor. Tirar o excesso das tintas anteriores. Dissolver as camadas antigas. Deixar a superfície reaprender a ser começo.
O removedor não tem um cheiro agradável, portanto não perfuma. Não é bonito. Não enfeita. Ele corrói.
E foi ali que, pacientemente, segui com o meu propósito, sentindo o cheiro forte do removedor, entendi uma coisa: (Olha que curioso!) a vida também é feita de camadas.
Vivemos tentando pintar felicidades sobre tristezas mal resolvidas. Tentando amar por cima de feridas ainda abertas. Tentando ser leve, aceitando fardos pesados. Mas (pense comigo!) existem certas camadas que não aceitam "tintas". Aceitam coragem. Aceitam um esforço nosso ou talvez um "removedor" invisível de autoestima e amor próprio para limpar, eliminar camadas que não devemos guardar.
Camadas de experiências, de aprendizados, de rancor, de fases que nos protegeram quando era preciso. Camadas de silêncio que aprendemos depois de falar demais. Camadas de cautela que veio depois de confiar demais. Uma camada de força que surgiu quando não havia outra opção. E (porque não?) desconfiança, que na maioria das vezes é o nosso "eu superior" querendo nos proteger de algo ou alguém.
Essas camadas não foram erros. Foram parte da nossa construção.
Mas chega um momento em que elas não precisam mais ficar. Não porque foram ruins, mas porque já cumpriram sua função.
Não precisamos carregar tudo para sempre.
Existe algo muito bonito em perceber que podemos constantemente nos renovar. Jamais apagando quem fomos, mas abrindo espaço para quem somos agora. Somente tirando excessos. Mas mantendo sempre o essencial.
O parapeito da minha janela ainda não recebeu a tinta nova. Mas, de algum jeito, ele já parece diferente. Está mais leve. Mais pronto. Mais verdadeiro.
Acredito que seja isso que as camadas nos ensinam: não é sobre acumular tudo o que vivemos. É sobre saber reconhecer o que ainda faz sentido ficar.
E ter a coragem de deixar o resto ir. Porque somos merecedores de deixarmos a "tinta da felicidade" fixar em nós!

Daniela Bitencourt Andara, é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de São Leopoldo
























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