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A dura verdade que ninguém quer falar sobre as enchentes e inundações - Por Bado Jacoby

Há momentos em que a realidade é tão dura que preferimos substituí-la por discursos, promessas e culpados da vez. Mas as tragédias climáticas que vivemos nos últimos anos, especialmente a enchente histórica de 2024, exigem um choque de realidade.


A verdade é que o problema das inundações em cidades como São Leopoldo dificilmente será definitivamente resolvido. Essa afirmação pode parecer pessimista, mas talvez seja apenas honesta.


Não faltam apenas recursos. Faltam planejamento de longo prazo, decisões corajosas e, principalmente, uma cultura de enfrentamento das mudanças climáticas que ainda está longe de existir no Brasil. Continuamos reagindo aos desastres depois que eles acontecem, quando deveríamos estar nos preparando para conviver com eles.


Ao longo de décadas, a lógica econômica e social falou mais alto do que a lógica ambiental. A especulação imobiliária avançou sobre banhados e várzeas. A necessidade de moradia empurrou milhares de famílias para áreas naturalmente sujeitas às cheias. O poder público, em diferentes governos e épocas, muitas vezes foi omisso ou incapaz de impedir essa ocupação.


A natureza apenas faz aquilo que sempre fez: ocupa o espaço que lhe pertence. O preço dessa conta está chegando. E, nos últimos anos, ela tem sido cada vez mais alta.


São Leopoldo talvez seja um dos exemplos mais emblemáticos dessa realidade. Grande parte da cidade foi construída em uma extensa planície de inundação do Rio dos Sinos. Estima-se que cerca de 60% da população viva em áreas com algum grau de risco para enchentes ou alagamentos. Não se muda essa realidade com decretos, discursos ou vídeos nas redes sociais.


Também não existe uma solução simples.


Não há áreas disponíveis para reassentar, em poucos anos, dezenas de milhares de pessoas. Não existem recursos suficientes, no curto e médio prazo, para executar todas as obras necessárias. E, apesar de muitos afirmarem conhecer a solução definitiva, a verdade é que nenhum estudo sério consegue garantir que uma única intervenção eliminará o risco de grandes enchentes.


O que existe é um conjunto de medidas capazes de reduzir impactos, nunca de eliminá-los completamente.


Mesmo assim, o debate público parece caminhar na direção oposta. Multiplicam-se especialistas instantâneos, análises superficiais e certezas absolutas sobre um tema extremamente complexo. Muitas vezes, a discussão técnica perde espaço para disputas políticas, interesses eleitorais e narrativas que oferecem respostas fáceis para problemas que não são fáceis.


Outro fenômeno também merece atenção. A enchente de 2024 mudou profundamente a percepção da população. Ela criou uma cultura de medo que não existia nessa intensidade.


Para muitos moradores da Rua das Camélias, da Rua da Praia, de trechos do bairro São Geraldo e de tantas outras regiões historicamente atingidas, conviver com a água sempre fez parte da rotina. Não era novidade que, em algum momento do ano, o rio poderia subir. A dúvida nunca foi se aconteceria, mas qual seria a intensidade da enchente.


Depois de 2024, esse sentimento ganhou outra dimensão. O trauma transformou qualquer previsão de chuva em motivo de apreensão. E isso é compreensível. Quem perdeu a casa, os móveis, documentos ou a própria história de vida jamais olha para um alerta meteorológico da mesma maneira.


É justamente por isso que a sociedade precisa de menos ilusões e mais honestidade.


Obras de proteção são fundamentais. Casas de bombas, diques, reservatórios, dragagens, sistemas de monitoramento e planos de contingência precisam continuar sendo aperfeiçoados. Tudo isso ajuda. Tudo isso salva patrimônio e, principalmente, vidas.

Mas nenhuma dessas medidas transforma uma área naturalmente inundável em um lugar livre de risco.


Talvez o maior desafio dos próximos anos não seja apenas construir infraestrutura. Será construir uma nova consciência coletiva.


Precisaremos aprender que eventos extremos serão mais frequentes. Que a adaptação climática deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade. Que políticas habitacionais devem considerar o risco ambiental. E que ocupar áreas vulneráveis tem um custo que, cedo ou tarde, será cobrado.


Essa conta não foi criada pela enchente de 2024. Ela começou a ser construída há muitas décadas, pela combinação de crescimento urbano desordenado, interesses econômicos, necessidade social e sucessivas omissões do poder público. Agora ela venceu.


A realidade é dura. Talvez seja até cruel. Mas negar essa realidade ou acreditar em soluções milagrosas apenas prolonga um problema que continuará fazendo parte da vida de cidades como São Leopoldo.


O primeiro passo para enfrentar uma tragédia climática não é encontrar um culpado para cada enchente. É ter coragem de admitir que algumas verdades são desconfortáveis — e que somente a partir delas será possível construir cidades mais resilientes para as próximas gerações.


Bado Jacoby, é repórter e apresentador da Start Comunicação

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