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A hora sombria do final da ética - Por Magali Schmitt

Eis que cruzamos o limiar. Chegamos à hora sombria em que abandonamos a ética e banalizamos a morte. O humano não mais nos habita. Atravessamos séculos e a história para chegar até aqui e nos intitularmos civilizados, mas não suportamos quem discorda de nós.


Assassinato, por si só, é um ato vil. Combinado com motivo torpe — matar porque a pessoa tem uma crença, uma ideologia diferente sequer deveria ser uma possibilidade. Sim, vivemos para testemunhar o triste momento de festejar a morte de alguém apenas por não concordar com a opinião dessa pessoa, “que já vai tarde”.


Já matamos e enterramos o jornalismo todo segundo a cada postagem caça-clique que mostra imagens de acidente, estupro e tiro na cabeça sem pudor, como se fosse uma cena banal, e sem pensar que a pessoa ali naquele vídeo também tem um ente querido que pode estar assistindo. Matamos e enterramos o jornalismo a cada pseudonotícia que só apresenta um dos lados ou pior: é falsa. Agora fazemos o mesmo com os nossos valores.


Falhamos, rachamos a sociedade ao meio e estamos nos segurando nas bordas. Estamos dançando nas sombras e flertando com o indizível. Sob a égide da censura e da liberdade de expressão passam todo tipo de excesso, de ideias distorcidas e aberrações.


Mas até a liberdade de expressão tem limites. Comemorar um assassinato e dizer que os filhos devem ficar felizes por terem se livrado do pai não é liberdade de expressão. É crueldade, falta de empatia. É se julgar maior e melhor do que os outros. É perder a noção e acreditar que a si nada vai acontecer, que está protegido da dinâmica da vida que não perdoa ninguém. É ser pequeno e não ter entendido nada.


Aliás, essa tem sido a regra: em nome da liberdade de expressão é permitido cometer crimes e, quando a sociedade cobra, se prevalecer do expediente da censura e acusar de perseguição política. O mesmo país que já usou à exaustão palavras como tolerância, que virou sinônimo de parcialidade, visto que intolerante é sempre o outro, nunca eu, cutuca agora as costelas do totalitarismo.


Enfim marchamos para o momento derradeiro em que todos seguiremos a mesma cartilha e não haverá mais o benefício do contraditório. Adeus, democracia. Finalmente, todos iguais.

É de se pensar.


Mas pensar custa. Dialogar custa. Aceitar que há opinião diferente demanda sensibilidade, exercício, enxergar o outro como um ser pensante e, acima de tudo, entender que a minha opinião não é sempre a correta, muito menos a única que existe. Há um mundo lá fora e preciso falar algo novo: sociedades modernas e abertas convivem com opiniões diversas e conseguem falar sobre isso.


Magali Schmitt, é jornalista e autora

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