A obrigação de ter opinião - Por Magali Schmitt
Houve um tempo em que era possível dizer apenas não sei. Ninguém nos exigia PhD em conflitos internacionais, indicadores econômicos ou ter teorias elaboradas sobre o comportamento de celebridades e políticos. Agora somos convocados a palpitar sobre tudo, com rapidez e convicção — a ignorância assumida virou constrangimento social. Basta qualquer mera situação para brotarem análises definitivas, julgamentos categóricos e especialistas recém-formados pela universidade das manchetes lacradoras. O importante é ter uma posição.
Para viver a gente tem que escolher um lado, defender uma tese, manifestar indignação ou entusiasmo. O silêncio pode ser interpretado como cumplicidade, a dúvida como fraqueza ou falta de personalidade. Nas redes sociais é quase uma obrigação diplomática dizer o que se pensa. Somos todos polivalentes: a mesma pessoa que discutia ontem a escalação da Seleção, hoje explica com inabalável segurança os intricados mecanismos da geopolítica mundial.
Há uma diferença considerável entre estar informado e ter propriedade sobre um assunto. Falo por mim, claro, que não ouso abrir a boca diante de determinados temas. Não saber também pode ser sinônimo de inteligência. Reconhecer os limites do próprio conhecimento é honestidade genuína — desde que não se abandone o pensamento crítico.
Nem todo acontecimento exige uma resposta imediata e algumas questões carecem de mais do que um ponto de vista improvisado. O pensar nunca deveria ser medido pela quantidade de opiniões que acumulamos, muito menos pelo volume com que as anunciamos. Em tempos de tanta gente disposta a explicar o mundo inteiro, trilhar o caminho inverso dá até uma sensação gostosa de transgressão que vale experimentar.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.

























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