A promessa que o medo desfez - Por Magali Schmitt
- Andressa Brunner Michels - Jornalista - MTB 19281/RS

- 4 de mai.
- 3 min de leitura
Pouca gente sabe, mas fiz vestibular para arquitetura e cursei algumas disciplinas iniciais. Filha de escola pública, tomei pau em matemática na largada, como era de se esperar. Morria de vergonha de abrir a boca na frente dos colegas vindos do ensino particular, que demonstravam não apenas desenvoltura com a matéria, como também preconceito com a menina pobre e de conhecimento pífio na área. Essa é uma das poucas vezes de que lembro ter ficado sem palavras — já que sempre fui desinibida e dona de uma autoestima invejável.
Depois desse banho de realidade na largada, fui forçada a abandonar o curso, porque meus pais não podiam bancar uma faculdade que, além de extensa, era cara demais. Aliás, não podiam pagar nenhuma — mas isso já é outra história.
A que quero contar hoje é de amizade, espiritualidade e medo.
À época, eu estudava à tarde. Tinha uma grande amiga, que fazia biologia. Ela era dez anos mais velha do que eu e morava perto da universidade. Costumávamos voltar juntas da aula, a pé. Eu dava uma passada lá, depois pegava o ônibus para ir embora. Para chegar mais cedo à casa dela, cortávamos caminho pelo cemitério. Nessa época, eu também tinha o estranho hábito de ler as lápides e nunca mais esquecer os nomes das pessoas. Atividades bastante salutares para uma jovem de 18 anos.
E, como um assunto leva a outro — e o tema de praxe naquele lugar era a morte — combinamos que quem morresse primeiro viria contar para a outra como era do lado de lá. Até aí, tudo bem. Nada de anormal, nada que já não tenha ocorrido com outras amigas. Aliás, a adolescência, em qualquer tempo, parece ser sempre um terreno permeado de areia movediça, eventos fantásticos e premonitórios.
E, afinal, estávamos falando de algo que aconteceria dali a 50 ou 60 anos. Era apenas um combinado de final de tarde, desses que se perdem no emaranhado de intenções que nasce e morre a cada 24 horas no universo.
Quem iria lembrar disso seis décadas depois? Talvez eu, com minha memória de elefante, que não esquecia nomes, datas, números de telefone e placas de carro.
Logo depois nos separamos. Nada de mais. Apenas cada uma seguiu seu rumo. Mudei para o jornalismo. Trabalhava de dia para pagar a faculdade à noite.
Até que o impensado ocorreu. Uns oito anos depois, ela morreu. Morte estúpida, por afogamento. Meu choque foi tamanho que entrei em negação. Não podia ser ela. Era alguém parecido. Nada daquilo fazia sentido. O local, a forma. Logo, não era a minha amiga. Não podia ser.
A essa altura, eu já estava adiantada na faculdade, depois de patinar um tempo ao largar a arquitetura. Tinha meu canto, emprego na área, namorado. Tudo organizado. Perder minha melhor amiga não estava nos planos.
Não sei dizer quanto tempo se passou — não muito —, mas comecei a sentir a presença dela no meu apartamento. Normalmente pela manhã, bem cedo. Não sei explicar. Era apenas a impressão nítida de que ela estava ali. E eu sentia medo. Um medo insano, absurdo.
E, quebrando nosso trato, desejava apenas que ela fosse embora.
Talvez tenha sido instinto de sobrevivência. Talvez pânico. Não sei. Nunca vou saber. Mas o que me incomoda, até hoje, é pensar que ela não poderia me fazer mal algum. E, ainda assim, eu quebrei a promessa — supondo, imaginando, temendo algo que nunca existiu.
Fui medrosa. Covarde. Esse conjunto de escolhas, todas desabonadoras, ainda depõe contra mim.
Mas, a meu favor, tenho o fato de que, uns cinco ou seis anos mais tarde, senti novamente a presença dela. Dessa vez, não tive medo. Aguardei o contato — que nunca veio. De novo o silêncio. A falta de respostas.
Adulta, com mais lucidez, não senti medo. Podia ter sido a chance de me redimir.
Será que criei tudo isso? Que esse contato nunca existiu?
Nossa mente é capaz de construir lugares onde o real e o imaginado se confundem com uma facilidade desconcertante. Talvez uma das explicações esteja em mim, que me afasto cada vez mais do sobrenatural. Tenho os dois pés bem cravados no chão — embora, na literatura, me permita extravasar tudo isso.
Gosto de pensar que mudei. Que evoluí. Que sou outra pessoa — melhor, mais consciente.
Será?
Mas, todos os anos, no dia 13 de setembro, eu lembro dela. Trinta e cinco anos depois.
Parece que algumas coisas nunca mudam.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.
























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