Antes de saltar - Por Magali Schmitt
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- há 4 dias
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Assisti a um vídeo que listava as principais ações que alguém deve realizar para considerar a vida paga. Escrever um livro, plantar uma árvore, ter um filho, tomar banho de cachoeira e viver um grande amor eram algumas das opções. Refleti e experimentei dois sentimentos distintos.
O primeiro foi um quentinho no coração: já gabaritei boa parte da lista. Uma sensação confortável de que os anos não passaram em branco. Enquanto as imagens deslizavam na tela, meu cérebro projetava outro filme, iniciado algumas décadas atrás, no qual a atriz principal sou eu.
O segundo pensamento veio na contramão. Se não há mais nada para conquistar, o que acontece depois? O apagar das luzes? A aposentadoria da emoção, dos objetivos, do desejo?
Somos estimulados o tempo todo a realizar, criar, desbravar. A exibir conquistas como quem apresenta extrato bancário da própria existência. Mas parece que tudo tem prazo de validade. E o que nos resta depois do check em todos os itens?
Essa reflexão me sequestrou por alguns instantes. Congelei naquela volta no tempo que a mente dá numa fração de segundo. Um turbilhão de pensamentos que culminou com a forte emoção, ao me dar conta, de que há mais para trás do que para a frente.
Mas a lista continha ainda dois pontos que me devolveram ao eixo: saltar de paraquedas e nadar contra a correnteza. Nadar contra a correnteza é tarefa diária. O cotidiano exige força, especialmente das mulheres. A correnteza é firme, constante, às vezes exaustiva. E, ainda assim, seguimos.
Restou, então, saltar de paraquedas. Uma meta ousada para quem não libera adrenalina à toa nem flerta com o risco por esporte — mas que talvez precise lembrar que a vida não é uma lista a ser encerrada.
Porque, no fundo, talvez não se trate de saber se a vida está paga. Porque vida não se quita. Não se encerra com recibo. Vida se renova enquanto houver curiosidade, desconforto e alguma vontade — ainda que pequena — de se lançar.
E se um dia eu saltar de paraquedas, que não seja para cumprir tabela. Que seja para provar a mim mesma que o próximo capítulo nunca vem pronto. Ele precisa ser inventado.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.





























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