Carnaval e outras fantasias que vestimos sem perceber - Por Daniela Bitencourt Andara
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Fevereiro chega com uma das festas mais esperadas e animadas do ano: o Carnaval!
Marchinhas, samba, blocos coloridos, brilhos, danças.... Nestes dias parece, que além da alegria, o país inteiro combina:
“Depois a gente vê isso.”
O Carnaval é uma das poucas festas em que, nós brasileiros, não pedimos licença pra ser feliz. Mas, também, pode ser a época em que "certos acontecimentos", passam despercebidos.
Projetos são votados em sussurros. Decisões importantes são decididas de fininho. Assuntos difíceis escolhem a terça de Carnaval para serem decididos, porque sabem que ninguém larga o bloco e/ou o descanso para tomar conhecimento.
Não é "teoria da conspiração" é estratégia antiga: enquanto o povo canta, o barulho cobre o resto.
As fantasias são vestidas, a música aumenta, e, por alguns dias, a vida vira confete.
Bonito de ver! Gostoso de viver!
E, se formos pensar bem, torna-se necessário, pois nos apertamos o ano inteiro: no ônibus, nos boletos, no cansaço, na paciência...
Por estes dias, ganhamos o direito sagrado de dançar, brincar e se divertir sem planilhas, sem compromissos e metas na cabeça.
E aí está, mais uma ironia, talvez a mais curiosa de todas:
a festa mais famosa pelas máscaras, revela máscaras ainda mais sutis.
Não é só no baile de carnaval que elas aparecem!
Há máscaras de governantes que sorriem enquanto assinam.
Máscara de empregadores que “apoiam a cultura e a inclusão” enquanto cortam esses direitos de seus colaboradores.
Máscara de "amigos" que só desejam "o nosso bem".
Máscara de gente “bem-intencionada” que diz: “Não é o momento de falar disso.”
E não é mesmo!
Na verdade, nunca é.
Mas antes que apontemos o dedo só para os grandes mascarados do mundo, (ou do nosso mundo!) vale um pequeno ajuste no nosso espelho: nós também usamos as nossas máscaras.
Usamos a máscara do “está tudo bem” quando não está.
A máscara do “eu tolero” quando estamos por um fio.
A máscara da alegria, muitas vezes forçada, na foto. A máscara da paciência, muito bem ensaiada. A máscara da coragem improvisada...
A verdade é que, nem toda máscara é fuga, falsidade ou esconde algo ruim da nossa personalidade, algumas protegem e outras nos dão coragem.
O problema não é o uso das máscaras.
O problema é esquecer quem somos quando as tiramos.
Talvez por isso sintamos tanta saudade dos carnavais antigos! Não porque era mais puro, mas porque a alegria parecia ser mais sincera e menos performática.
Ah, aqueles carnavais.... Tinha confete no cabelo, marchinha inocente e até um beijinho roubado ao som da banda do baile. Talvez não fossem melhores. Mas sim, acredito que sabíamos brincar sem nos machucarmos tanto.
Ainda assim, o Carnaval nos lembra que alegria coletiva existe. Que corpos e amores diferentes cabem na mesma rua. Que desconhecidos podem brincar e cantar ao som da mesma música, como velhos amigos.
A festa é linda. O riso é legítimo. A alegria é necessária.
E quando chega a quarta-feira de cinzas a vida real volta, (teimosa!), pedindo a nossa presença. E a realidade ecoa, como na canção de Chico Buarque: " Apesar de você, amanhã há de ser outro dia".
O Carnaval pode até nos distrair por algumas horas, mas a vida sempre volta ao seu normal.
A felicidade e a esperança não moram na fuga permanente e sim na coragem de abrir os olhos quando a música acaba. Mostrando quem somos: sem glitter, sem filtro e sem máscara. Mas com fé, colocando "nosso bloco" na rua o resto do ano.
Feliz Carnaval!

Daniela Bitencourt Andara, é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de São Leopoldo






