top of page

Causos de outrora - Por Magali Schmitt

Quando o sol já vai desmerecendo no horizonte, de vereda me lembro dos tempos de primeira. De já hoje pensava naquela época, quando somente a lua alumiava a noite e, no escuro da varanda, cortado pelo facho do candeeiro rodeado de mariposas, o corpo descansava da lida do dia. Lá fora, os vagalumes começavam a piscar e o cheiro dos maricás adocicando tudo. O terreiro jazia silenciado da gritaria da gurizada. Um cusco ladrava ao longe, solitário. Como era boa aquela vida. Lá de dentro vinha o cheiro de carne fritando na panela de ferro, para mais tarde ser misturada à mandioca cozida, se desmanchando. Ambrosia ou doce de abóbora depois. Um chá de boldo em cima pra rebater a gordura e enfrentar melhor a noite de sono — se batendo pra espantar a mosquitada.


Bom era tragar a fumaça do palheiro lentamente, sentindo a ardência do fumo nos lábios. Erguer os pés livres das botas e sorver o mate devagar, deixar a cabeça livre. O silêncio chegava a doer. A noite se debruçava, se esparramando pelo universo. As estrelas começavam a se empoleirar no céu, num pisca-pisca, tisnando de prata o breu sem fim. Logo se ouvia um Ó de casa. A cachorrada se alvoraçava toda. Quem vem lá?, gritava eu daqui, me pondo em pé, ajeitando as calças e passando a mão pelo cabelo engraxado. A visita chegava. Quase sempre era um parente próximo. Tem janta?, perguntava. Pode chegar, onde comem três comem quatro. Era a senha para uma longa conversa, talvez um carteado depois. Os assuntos giravam em torno do clima, a plantação, os animais, a criançada que crescia feito capim depois da chuva. Lá dos fundos vinha um chiado de música, do radinho de pilha.


A vida era assim. Passava lentamente, sem pressa de acontecer. Mais tarde, todos reunidos em torno da mesa, a conversa rolava solta. Era um passa a carne pra cá, me alcança a mandioca pra lá, quer feijão compadre?, tem torresmo, nega?, vão carnear o porco domingo?, o padre Onofre vai vir aqui pra almoçar amanhã, vamos matar a Franzina pra fazer a canja que ele gosta... Tudo sob a luz do lampião e a algazarra da piazada.


Dali a pouco era se preparar para o amanhã, para saltar cedo da cama. Bem que podia chover esta noite, pra gente dormir sentindo o cheiro gostoso de terra molhada.


Hoje já não vemos mais o compadre, as crianças cresceram e foram estudar na cidade, vêm somente nas datas especiais, o padre Onofre envelheceu do corpo e da mente, fica resmungando pelos cantos. Tudo é tão corrido, no inverno faz calor no verão faz frio, as estrelas mal aparecem, escondidas pela poluição, a natureza chora a pressa do homem. E nós apenas nos sentamos na varanda olhando o sol desbotar, mas sem aquele brilho de outrora.


Magali Schmitt, é jornalista e escritora. 

 

Comentários


BANNER REFIS - START 1230X1020
banner-ddd7432f3d9-eace-4869-9638-7268682e3f96
WhatsApp Image 2026-04-06 at 11.10.24
WhatsApp Image 2026-04-03 at 11.59.58
Banner_Seguro-Viagem_1230x1020px-(2)
Banner_Seguro-de-vida_1230x1020px-(2)
IMG_4264
Manuela Start - 1
BannerSite_1230-x-1020
Técnico em Desenvolvimento de sistemas (1)
WhatsApp Image 2025-04-10 at 18.55.37.jpeg
bottom of page