De onde eu te conheço? - Por Magali Schmitt
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Sempre fui ótima fisionomista. Ultimamente, nem tanto. Cansaço, HD lotado e climatério são alguns dos responsáveis. Talvez tenha também um pouco de desatenção. Pode ser que falte aquele instante de olhar alguém com vontade de ver e colocá-lo no arquivo correspondente do cérebro. E nesse final de semana ocorreu exatamente o contrário. Uma pessoa me reconheceu. O mais surpreendente: ele conseguiu me distinguir de dois lugares distintos que frequento na vida profissional. Para arrematar, demorei uns bons segundos a identificá-lo fora do contexto em que costumo vê-lo.
Vi nele um talento que já tive, ao mesmo tempo que me ressenti de não exercer mais esse dom. Esse sentimento me deixou meio bolada. Costumava ser muito boa em encontrar alguém fora do cenário e colocá-lo, em instantes, no lugar habitual. Sabe quando o médico troca o jaleco pela bermuda e chinelos de dedos e damos de cara com ele na praia? Ou quando topamos com aquele colega que a gente só vê na academia, vestindo terno, num simpósio. Dá uma desorganizada. Algo não encaixa. Aquele rosto é familiar, mas não naquele ambiente. Tem que fazer um grande exercício para trazer a pessoa para essa realidade, nessa nova versão.
É mais ou menos como encontrar uma atriz famosa e ficar se perguntando: de onde eu a conheço? Quando alguém escapa da gaveta onde convivemos com mais frequência, dá um curto-circuito na memória. Eu entendo que a professora não vive presa na sala de aula, num loop eterno do espaço tempo, sempre à espera dos alunos. Que o meu oftalmologista também compra tomate e o atendente do café pode ser aquele carinha que dançou mal na festa em que fui com as amigas ou que toca sax numa praça aos domingos.
Nenhum de nós cumpre apenas o papel que representa no trabalho. Mudamos de comportamento conforme o ambiente, escolhemos palavras, roupas e até expressões diferentes. A vida social é feita dessas pequenas adaptações. Assim como eu, você deve ter inúmeras habilidades que seus amigos nem imaginam. Aí, quando encontramos uma dessas versões por acaso, dá um bug no sistema. Isso torna o outro mais complexo. E complexidade é algo cada vez mais raro nesses dias superficiais. Eu encontrei alguém que quebrou essa regra e estou até agora pensando uma maneira de voltar a ser assim também!

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.
























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