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Depois do cão Orelha, o que ainda conseguimos sentir? - Por Nana Vier

Há notícias que passam. Outras ficam. O caso do cão Orelha não se encerrou no dia em que foi noticiado, nem nos desdobramentos que continuam aparecendo nas redes. Ele permanece porque toca um ponto sensível: a forma como lidamos com o sofrimento do outro, especialmente quando esse outro não pode se defender nem se explicar.


Não é apenas sobre um cão. É sobre o que a violência contra ele revela. Orelha se tornou símbolo não por escolha, mas porque sua história expôs algo que preferíamos não ver: a facilidade com que a crueldade encontra espaço quando a empatia falha. A comoção coletiva, os pedidos de justiça, as manifestações públicas são importantes. Mas, passado o impacto inicial, resta a pergunta mais difícil: o que fazemos com isso depois?


As redes sociais amplificam emoções, aceleram julgamentos e criam ondas de indignação que sobem rápido e muitas vezes se dissipam com a mesma velocidade. Há um perigo nisso. Quando a dor vira apenas mais um conteúdo, corre-se o risco de senti-la sem sustentá-la. Indignar-se é fácil. Permanecer atento é mais difícil.


Talvez por isso tantas pessoas se sensibilizem mais rapidamente com a violência contra um animal do que contra uma criança ou um idoso. No animal, não há ambiguidade moral. Ele é percebido como absolutamente indefeso, incapaz de culpa, escolha ou contradição. A violência aparece sem justificativas possíveis, sem “mas”. É crueldade pura. Já o sofrimento humano costuma ser atravessado por explicações, julgamentos e disputas de narrativa — perguntas que diluem a empatia e afastam a responsabilidade coletiva.


Além disso, a violência contra pessoas nos confronta de forma direta. Ela revela falhas profundas: da família, do Estado, da escola, da sociedade. Exige mudanças estruturais, continuidade, compromisso. A violência contra um animal, embora igualmente grave, permite uma indignação mais confortável — intensa, mas breve — que não obriga a revisões tão profundas sobre quem somos e como educamos.


Os dados, as investigações e os encaminhamentos seguem seu curso. Há responsabilizações em debate, medidas sendo discutidas, protocolos sendo acionados. Tudo isso importa. Ainda assim, nada disso responde à inquietação que permanece. Porque a violência não começa no ato final. Ela se constrói antes no desvalor da vida, na banalização do sofrimento, na ausência de limites claros entre o aceitável e o intolerável.


Talvez o que mais desconcerte seja o fato de que não estamos falando de figuras distantes ou irreais. Estamos falando de jovens, de contextos conhecidos, de uma sociedade que forma seus cidadãos todos os dias, mesmo quando acredita que não está ensinando nada. A crueldade aprendida raramente é explícita. Ela se infiltra na indiferença, no silêncio, na tolerância com pequenos abusos que vão se acumulando.


O caso de Orelha escancarou uma fragilidade coletiva. Mostrou o quanto nos tornamos rápidos para reagir e lentos para refletir. Quando a violência deixa de chocar, algo essencial já se perdeu. E quando escolhemos sentir apenas aquilo que não nos exige mudança, a empatia deixa de cumprir seu papel mais profundo.


Talvez por isso esse caso siga incomodando. Porque ele não permite conforto. Ele exige posicionamento, revisão de valores e responsabilidade compartilhada. Ainda há tempo de escolher outro caminho — um que passe pela educação emocional, pela responsabilização consciente e pelo cuidado como valor inegociável.


Porque o que está em jogo não é apenas justiça para um cão. É o tipo de humanidade que estamos dispostos a sustentar.

 

Nana Vier, é professora e escritora

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