Dívida Pública Federal avança com pressão crescente dos juros - Por Roberto Balau Calazans
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A Dívida Pública Federal (DPF) cresceu de forma expressiva nos últimos anos. Entre dezembro de 2023 e julho de 2026, o estoque administrado pelo Tesouro Nacional passou de aproximadamente R$ 6,52 trilhões para R$ 9,29 trilhões. São R$ 2,77 trilhões a mais em pouco mais de dois anos e meio, uma expansão nominal de 42,5%.
O aumento, por si só, já merece atenção. Mas o dado mais interessante está na forma como essa dívida cresceu. Uma parcela importante da expansão não veio da emissão líquida de novos títulos, mas da apropriação de juros sobre a dívida já existente. Em outras palavras, não foi apenas a necessidade de buscar novos recursos no mercado que elevou o estoque: o próprio custo de carregar a dívida ganhou peso nesse processo.
Evolução da Dívida Pública Federal desde 2023 | ||||
Indicador | 2023 | 2024 | 2025 | Jul./2026* |
Estoque da DPF – R$ trilhões | 6,520 | 7,316 | 8,635 | 9,289 |
Variação nominal do estoque | 9,6% | 12,2% | 18,0% | 7,6% |
Emissão líquida – R$ bilhões | -38,2 | 34,0 | 439,1 | 47,1 |
Juros apropriados – R$ bilhões | 607,7 | 762,4 | 880,0 | 606,6 |
Custo médio da DPF – % a.a. | 10,51% | 11,80% | 11,85% | 12,45% |
Prazo médio – anos | 3,95 | 4,05 | 4,00 | 4,05 |
Vencimentos em até 12 meses | 20,14% | 17,87% | 17,46% | 18,91% |
NOTA: Os valores de emissão líquida, juros apropriados e variação do estoque de 2026 referem-se ao acumulado até julho. | ||||
FONTE: Anexos do Relatório Mensal da Dívida Pública Federal (RMD), Tesouro Nacional. | ||||
A trajetória dos últimos anos deixa essa mudança bastante visível. A DPF avançou 9,6% em 2023, 12,2% em 2024 e 18,0% em 2025. Nos sete primeiros meses de 2026, já havia crescido outros 7,6%. Mais importante do que acompanhar apenas essas taxas, porém, é observar quanto desse aumento veio de novas emissões e quanto resultou dos juros incorporados ao próprio estoque.
Em 2023, por exemplo, o Tesouro teve emissão líquida negativa em R$ 38,2 bilhões — ou seja, os resgates superaram as emissões — e, ainda assim, a dívida aumentou. A principal explicação está nos R$ 607,7 bilhões de juros apropriados naquele ano. Em 2024, o peso dos juros ficou ainda mais evidente: dos cerca de R$ 796 bilhões adicionados ao estoque, aproximadamente R$ 762 bilhões decorreram da apropriação de juros, enquanto a emissão líquida foi de apenas R$ 34 bilhões.
O cenário mudou em 2025. Os juros continuaram elevados, chegando a aproximadamente R$ 880 bilhões, mas vieram acompanhados de R$ 439 bilhões em emissão líquida. A combinação dos dois fatores levou ao maior aumento anual da DPF no período analisado, de aproximadamente R$ 1,32 trilhão.
Já em 2026, até julho, os juros voltaram a assumir papel dominante. Dos aproximadamente R$ 654 bilhões adicionados à dívida, cerca de R$ 607 bilhões vieram da apropriação de juros e apenas R$ 47 bilhões da emissão líquida. Em termos aproximados, mais de 90% do crescimento observado entre dezembro de 2025 e julho de 2026 esteve associado aos juros.
É difícil olhar para esses números e tratar o crescimento recente da dívida apenas como resultado de novas emissões. O custo financeiro do estoque acumulado tornou-se parte importante da própria dinâmica de expansão da DPF.
O custo da dívida aumentou
Há outro dado que ajuda a entender esse movimento. O custo médio da DPF passou de aproximadamente 10,5% ao ano em dezembro de 2023 para 12,45% em julho de 2026. Uma diferença próxima de dois pontos percentuais pode parecer moderada quando observada isoladamente, mas ganha outra dimensão quando incide sobre uma dívida que já se aproxima de R$ 9,3 trilhões.
A composição da carteira também mudou. Os títulos remunerados por taxas flutuantes, especialmente aqueles vinculados à Selic, ganharam espaço e representavam aproximadamente 51% da DPF em julho de 2026. Na prática, isso torna o custo da dívida mais sensível às condições monetárias: quando a taxa básica permanece elevada por mais tempo, o efeito não aparece apenas nas novas emissões. Parte relevante do estoque já existente também passa a carregar encargos maiores.
Isso não significa que os títulos pós-fixados sejam, por definição, uma escolha ruim. Em momentos de maior incerteza, eles podem ser mais facilmente absorvidos pelo mercado e evitar que o Tesouro tenha de aceitar prêmios ainda mais altos em títulos prefixados de longo prazo. A gestão da dívida envolve justamente esse equilíbrio entre custo, risco e capacidade de financiamento.
O problema fiscal aparece quando juros elevados permanecem por tempo suficiente para incidir sobre um estoque grande e crescente. Nesse ambiente, o custo financeiro deixa de ser apenas uma consequência do endividamento e passa a influenciar de forma relevante sua própria trajetória.
O perfil de vencimentos permanece relativamente estável
Nem todos os indicadores, porém, caminharam na mesma direção. O prazo médio da DPF permaneceu próximo de quatro anos durante todo o período analisado: era de 3,95 anos em 2023 e estava em 4,05 anos em julho de 2026.
A parcela da dívida com vencimento nos doze meses seguintes também não mostra, até aqui, um encurtamento estrutural. Esse percentual era de 20,14% no final de 2023, recuou para 17,46% em 2025 e voltou a subir para 18,91% em julho de 2026.
Isso não elimina o risco de refinanciamento, naturalmente relevante em uma dívida dessa dimensão, mas ajuda a colocar o problema em perspectiva. A principal mudança observada desde 2023 não está no encurtamento dos prazos. Está, sobretudo, no crescimento do estoque, no aumento do custo de carregamento e na maior presença de títulos remunerados por taxas de curto prazo.
Considerações finais
Os números desde 2023 sugerem que o debate sobre a dívida federal precisa ir além da pergunta sobre quanto o governo está emitindo. O estoque cresceu rapidamente, mas uma parcela expressiva dessa expansão veio dos juros incorporados à própria dívida. Isso ficou particularmente claro em 2023, 2024 e nos primeiros sete meses de 2026. Em 2025, o quadro foi diferente, porque aos juros elevados se somou também um volume expressivo de emissão líquida.
Ao mesmo tempo, a maior participação de títulos vinculados a taxas flutuantes aumentou a sensibilidade da dívida às condições monetárias. O prazo médio permaneceu relativamente estável, o que é um contraponto importante, mas isso não elimina o efeito de carregar um estoque elevado em um ambiente de juros altos.
Esses dados, isoladamente, não permitem afirmar se a dívida pública brasileira é sustentável ou insustentável. Uma conclusão dessa natureza exige olhar para indicadores mais amplos, especialmente a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), a relação dívida/PIB, o resultado primário, a taxa real de juros e o crescimento da economia.
Mas há uma mensagem que a trajetória da DPF permite extrair com segurança: não basta acompanhar o tamanho da dívida; é preciso observar quanto custa mantê-la. Quando a taxa real de juros permanece acima da taxa real de crescimento da economia, aumenta o esforço fiscal necessário para estabilizar o endividamento em relação ao PIB.
Referências
BRASIL. Tesouro Nacional. Relatório Mensal da Dívida Pública Federal – julho de 2026. Brasília: Ministério da Fazenda, 2026. Publicado em 26 ago. 2026. Disponível em: https://www.tesourotransparente.gov.br/publicacoes/relatorio-mensal-da-divida-rmd/2026/7.
BRASIL. Ministério da Fazenda. Dívida Pública Federal totalizou aproximadamente R$ 9,29 trilhões em julho de 2026. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2026/agosto/divida-publica-federal-totalizou-r-9-298-trilhoes-em-julho.

Roberto Calazans, é economista e secretário da Fazenda de São Leopolo
























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