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Entre consultas, reflexões e batons - Por Daniela Bitencourt Andara

Essa semana fui ao ginecologista fazer meus exames anuais.


Consultório cheio. Mulheres de todas as idades esperando a consulta enquanto seguravam seus exames, bolsas enormes, garrafas d’água, celulares e provavelmente o peso invisível de uma vida cotidiana tentando dar conta de tudo.


Sempre achei consultório ginecológico um tanto curioso. Existe sim, uma intimidade silenciosa ali. Como se, por alguns minutos, todas nós dividíssemos o mesmo propósito, a mesma exaustão feminina sem precisar explicar muito.


Enquanto esperava ser chamada, duas mulheres conversavam alto atrás de mim. Não ouvi a conversa por curiosidade indiscreta. Ouvi, porque a vida moderna faz questão de deixar nossas reflexões sempre em volume alto.


Na conversa, uma delas dizia:

— “Preciso voltar urgentemente para academia.”

A outra respondeu:

— “Eu também! E preciso voltar a fazer caminhadas. E marcar dermatologista. E beber mais água. E dormir cedo....”


As duas riram muito.


Mas, com certeza, havia ali, naquele riso, um cansaço e uma tristeza funcional.


Porque ser mulher necessita termos uma lista infinita de coisas que "precisamos" (segundo, a mídia) melhorarmos em nós mesmas.


Precisamos estar emocionalmente em nível hard, com exames em dia, pele de pêssego (de preferência sem rugas), cabelo hidratado, produtividade alta, maternidade consciente, corpo saudável (e de preferência magro), alimentação equilibrada (sem "enfiar o pé na jaca"), autoestima forte e, se possível, ainda postar stories sorrindo naturalmente em algum lugar bonito, com luz boa no fim de tarde.


Às vezes penso que estamos todas cansadas de tentar alcançar uma versão perfeita de nós mesmas que não existe.


A impressão é que acordamos já em débito com alguma coisa:


Devendo energia . Devendo autocuidado.

Devendo academia.

Devendo paciência.

Devendo presença.

Devendo felicidade.


E no meio dessa correria toda, estamos apenas sobrevivendo elegantemente.

Fazendo skincare emocional através de vídeos motivacionais no YouTube antes de dormir. Comprando cremes caros na esperança secreta de apagar um cansaço que não vem da pele.


Porque não são as rugas. É o excesso!


Excesso de cobrança dos outros e da gente mesmo.

Excesso de responsabilidades, que muitas vezes não são apenas nossas.

Excesso de necessidade de dar conta.


E olha só como é complexo: enquanto umas são felizes do jeito que são (apesar das listas de "obrigações") outras tentam sobreviver (apesar do medo). Porque hoje, apesar de toda informação, o feminicídio está aí e começa muito antes da tragédia. Começa no controle, no ciúme e na ideia cruel de que amor significa posse.


E, continuando a complexidade, enquanto o mundo faz piadas sobre mulheres ao volante, seguimos sustentando casas, liderando famílias e resolvendo a vida de todos ao redor com uma força silenciosa e admirável que só nós mulheres conhecemos.


Voltando para a minha consulta no ginecologista: O mais bonito naquela sala de espera não eram as roupas, nem as bolsas, nem os batons impecáveis de algumas mulheres às oito da manhã. Era perceber que, apesar do cansaço, todas continuavam tentando.


Tentando se cuidar.

Tentando não esquecer de si mesmas.

Tentando existir além das contas, dos filhos, do trabalho, da correria e das expectativas absurdas que colocaram sobre nós.


Porque no fundo, quando olhamos para nós mesmas, cada pequeno cuidado é uma forma silenciosa de dizer para si mesma:


“Eu te amo como tu és e estou aqui para viver o extraordinário.”


Daniela Bitencourt Andara, é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de São Leopoldo

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