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Estamos lutando as lutas que valem a pena? - Por Magali Schmitt

Dez anos da tragédia de Mariana, onde 19 pessoas morreram, uma sobrevivente grávida perdeu o bebê e a cidade foi totalmente engolida pela lama da barragem do Fundão, que se rompeu. Uma década e os desdobramentos judiciais, nos informa a mídia, ‘seguem’ sem decisão definitiva. Quem passou por veículo de comunicação sabe o quanto os editores raiz torcem o nariz para o verbo seguir e como é ele refutado nas redações. Afinal, segue não diz nada, indica que a situação é a mesma, nada mudou.


Mas mudou, e muito.


É algo como a enchente que vivemos aqui. Vendo pela televisão, quem está longe não tem noção do que de fato aconteceu. Só vivendo na pele para saber. Somente enxergando e sentindo o cheiro.


Há recurso sendo analisado no Ministério Público Federal pedindo absolvição dos acusados. Mas os crimes já prescreveram. A reparação foi repactuada para R$ 170 bilhões na esfera cível.  Enquanto isso, a Inglaterra condenou nesta sexta (14) a mineradora anglo-australiana BHP, acionista da Samarco, em uma ação coletiva entre comunidades, municípios, pessoas jurídicas e instituições religiosas que pedem indenizações da ordem de R$ 230 bilhões. O valor ainda não foi definido, mas os britânicos reconhecem a responsabilidade da empresa no maior processo do tipo analisado pela Justiça daquelas bandas. 


Parece que lá fora há outra ótica, outro entendimento.


Isso fala muito sobre o Brasil. A mesma Justiça que tem pressa em alguns casos não parece exercer a mesma celeridade em outros. Talvez seja o apelo. Mas existe apelo maior do que uma comunidade inteira devastada? Do que histórias serem soterradas, apagadas pela lama? Do que vidas interrompidas pela negligência, pela tragédia anunciada que poderia ter sido evitada?


Há que se falar, ainda, sobre os interesses. Nenhum influencer tomou para si essa dor. Alguém vai ganhar notoriedade levantando a bandeira das famílias que tiveram sua identidade levada pelo lodo? Quem ganha e quem perde punindo as empresas? Rende likes? Com quantos seguidores a mais vou terminar meu dia?


Mas esse não é um problema exclusivo da Justiça. É nosso, fala também de nós, da nossa incapacidade de romper a bolha e lutar pelo que é certo. O desastre ambiental de Mariana é apenas um exemplo. Quantos outros estão aí ao nosso redor diariamente? Se não diz respeito ao nosso umbigo, diretamente, consideramos que não vale a luta, o movimento, o gasto calórico. Porém, é aí, nesse ponto, que reside o que nos diferencia de outras grandes nações.


O que nos falta é senso de comunidade, de pertencimento? Quais as causas comuns que nos movem, que podem nos tirar da cadeira além da política e do futebol? Precisamos encontrá-las, descobrir nossa paixão nacional que não seja posicionada na esquerda nem na direita. Entender nossa força, o potencial, aquela energia capaz de impelir esse exército gigantesco de mais de duzentos milhões de pessoas na mesma direção.


Como se muda a mentalidade de um povo? Essa reflexão deveria virar pauta obrigatória nas escolas, empresas, nos bares, nas orações, casas e na mente de cada um. Até que tenhamos noção e conhecimento do poder que emana de nós mesmos e possamos acreditar que temos capacidade de mudar as coisas e de que vale a pena.


Enquanto seguirmos (lembram do verbo seguir?) ignorando nosso potencial coletivo e lutando somente as lutas pessoais, continuaremos sendo cobertos pela lama. Até que sejamos esquecidos, tal como estamos fazendo com Mariana.


Magali Schmitt, é jornalista e escritora.

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