Foi dando errado que deu certo - Por Nana Vier
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A gente começa quase tudo imaginando que vai dar certo. Faz planos, organiza os detalhes e ensaia uma versão perfeita do futuro. A viagem será tranquila. A receita ficará igual à fotografia. O projeto será aprovado. Mas a vida tem pouca consideração pelos nossos roteiros.
Algumas coisas encontram seu caminho depois de uma tentativa frustrada. Não por castigo ou por uma ordem do universo, mas porque o erro mostra o que o entusiasmo não deixou enxergar.
Na década de 1960, Spencer Silver, cientista da 3Mništ, buscava um adesivo forte e criou uma cola fraca, que permitia colar e descolar. Anos depois, Art Fry encontrou uma aplicação para ela: prender os marcadores de seu livro de cânticos sem danificar as páginas. Da combinação entre um resultado inesperado e um problema cotidiano nasceu o Post-it.
Em 1928, Alexander Fleming observou que um fungo havia contaminado uma placa de cultura de bactérias. Em vez de descartar o material, percebeu que elas não cresciam ao redor do invasor. Aquela observação abriu caminho para a penicilina, cujo desenvolvimento como medicamento exigiu o trabalho de outros pesquisadores.
James Dyson passou por 5.127 protótipos até chegar ao o aspirador sem saco. Não foi uma sequência de inspirações brilhantes. Foi trabalho, teste e correção. O que não funcionava ajudava a orientar a tentativa seguinte.
Conhecemos essas histórias pelo final. O bloquinho sobre a mesa, o medicamento, o aparelho pronto. Os anos de dúvida e os resultados frustrantes ficam fora da fotografia.
Na nossa vida acontece o mesmo. Um projeto recusado pode ganhar consistência depois da revisão. A viagem que mudou de rota pode apresentar uma cidade. Na cozinha, o bolo que desmontou vira sobremesa de travessa e recebe elogios de quem nem imagina o desastre original.
Isso não torna todo erro necessário. Há dores que apenas machucam e prejuízos que poderiam ser evitados. Ninguém precisa agradecer pelo sofrimento. Mas podemos decidir o que fazer com aquilo que não saiu como esperávamos.
O problema é que vivemos cercados de resultados editados. Vemos a inauguração, não as contas difíceis. A mesa bonita, não a panela que queimou. E comparamos nossas tentativas com as conquistas dos outros.
Recomeçar exige mais do que disposição para repetir. Exige reconhecer o que falhou e mudar a maneira de fazer. Insistir sem aprender apenas prolonga o mesmo problema.
O erro, sozinho, não constrói nada. É o que fazemos depois dele que pode mudar a história. Dar certo nem sempre começa com um acerto. Começa quando deixamos de repetir o que deu errado.

Nana Vier, é professora e escritora
























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