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Manual dos pequenos aprendizados - Por Magali Schmitt

Dois adolescentes passaram por mim em uma bicicleta. Até aí, nada de extraordinário e, talvez por isso mesmo, essa cena tenha me capturado. Enquanto um pedalava o outro ia sentado no guidão, numa carona improvisada, com confiança total no amigo e no mundo. Eles riam com uma leveza que dispensa explicação, com aquela certeza que a gente tem nessa idade, de que tudo vai dar certo.


Foram dois ou três segundos, só o instante entre passar de carro e perdê-los de vista. Mas a imagem ficou. Porque ali havia uma espécie de felicidade crua, simples e original. Sem filtro, pose nem plateia. Só o vento no rosto, o risco de se estatelar que se assume nessa hora e a decisão de ir mesmo assim.


E me dei conta do quanto isso anda raro. Hoje, qualquer ato cotidiano precisa de um cenário, do enquadramento perfeito. É quase como se viver tivesse virado uma produção, com roteiro, iluminação e aprovação externa. Estamos virando versões editadas de nós mesmos.


Aquele momento me jogou à minha própria adolescência, quando inúmeras vezes fiz o mesmo. E senti que algo que se perdeu no caminho. Porque a simplicidade exige menos e entrega mais. Pedalar com alguém na garupa ou no guidão é confiar, dividir: o peso e a experiência. Nos faz ajustar o ritmo e deixar de pensar no singular.


É um treino para a vida real com noções de habilidade e companheirismo. Nos ensina a cair, levantar, recalcular o trajeto, mas, sobretudo, a sustentar o próprio corpo no mundo, a caber nele de diferentes maneiras, sempre lembrando que o percurso é melhor quando compartilhado.


Foi só uma cena de filme antigo que carrego na lembrança. De quando a gente esfolava joelho e voltava para casa exausto de sorrisos. De quando proteger era preparar, não facilitar.


Hoje, a bicicleta foi trocada por um quadriciclo elétrico. Na ânsia de evitar que caiam, estamos furtando das nossas crianças coisas básicas como o prazer de pedalar, a chance de fortalecerem não apenas os músculos, que por si só já é indispensável, mas, principalmente, o espírito.


Ao evitar que sofram, estamos criando adultos frágeis, despreparados. Talvez por isso a cena dos meninos livre da textura instagramável tenha mexido tanto comigo. Porque me fez desejar que a rua se torne, de novo, um lugar ocupado por jovens.


Magali Schmitt, é escritora e jornalista.

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