Manual involuntário do tempo - Por Magali Schmitt
- Andressa Brunner Michels - Jornalista - MTB 19281/RS

- há 2 horas
- 2 min de leitura
Falar de clima é algo corriqueiro, tão trivial que soa quase simplório. É o tipo de assunto que aproxima qualquer pessoa. Na parada de ônibus, no elevador, na fila do supermercado. Vira e mexe e o tema é o frio, o calor, as intempéries.
Nós, brasileiros, somos irrequietos por natureza. Não conseguimos sustentar o silêncio diante de um estranho. E nada melhor do que uma mudança brusca na temperatura para criar uma ponte improvisada entre dois mundos.
Não vejo isso como defeito. É uma característica que nos define com delicadeza: somos um povo que busca calor — no clima e nos outros. Confesso que, muitas vezes, preciso me policiar para não iniciar uma conversa sobre o tempo, tentando domesticar um impulso antigo.
Com os anos, entendi que o clima transcende o status de assunto. O clima é uma linguagem. Porque a vida é feita de ciclos: horas, dias, semanas, anos. Mas não só.
Existe lá no fundo uma lembrança anterior ao calendário e ao relógio, que continua pontuando nossa existência. As estações, as fases da lua — tudo segue um compasso, um sistema feito para funcionar apesar da nossa ansiedade.
Ainda assim, insistimos em viver como se não houvesse pausa entre um verão e outro.
A entrada do outono, no último sábado, me fez desacelerar o olhar. Não foi um pensamento elaborado. Foi um cheiro. Um leve rastro de fumaça no ar. Desses que abrem uma fresta na memória.
E, de repente, eu estava lá, num inverno perdido da infância. O fogão a lenha estalando baixinho, como se conversasse com a casa. O calor espesso ocupando os cantos, o vidro embaçado, o tempo mais lento, quase respeitoso. Havia algo sendo preparado, sempre havia. Não só comida, mas um futuro inteiro aquecido naquele instante.
O cheiro da lenha queimada misturado ao de café passado, de pão de casa no forno, de vida acontecendo sem pressa. Um movimento contrário a esses dias em que corremos por um corredor sem olhar para os lados, jogando para o mundo a obrigação de se adaptar a nós. Mas não observamos, não olhamos além.
O clima nos ensina que há tempo para todas as coisas. Para o recolhimento e a expansão. Talvez por isso suas variações sejam tema recorrente, porque chegam desorganizando algumas certezas. É uma forma de dizer: eu também estou aqui, atravessando esse mesmo ciclo que você. E, quem sabe, tentando aprender — ainda que tarde — a respeitar o ritmo da Terra dentro de nós.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.

























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