O desaparecimento do meio - Por Magali Schmitt
Quase nada na atualidade é simplesmente bom. Um restaurante é maravilhoso ou decepcionante. Uma série é genial ou uma perda de tempo. Uma viagem precisa ser inesquecível. Um livro que não muda vidas não vale a leitura. Até uma terça-feira qualquer parece ter obrigação de ser produtiva, intensa, especial ou, no mínimo, render uma boa história. Desaprendemos a circular no meio, como se não houvesse nada fora das extremidades. O legal perdeu prestígio e o mais ou menos virou quase uma confissão de fracasso.
As redes sociais certamente ajudam: nelas, o extraordinário chama atenção, o escândalo circula, a indignação engaja e a felicidade é sempre um tantinho maior do que realmente é. Mas seria injusto culpar apenas o celular. A lógica de se agarrar nas bordas escapou da tela faz tempo. Está nas conversas, nas relações, na política, no consumo e até na forma como avaliamos a nós mesmos. Ou somos excelentes ou incompetentes. Vencemos ou fracassamos. Amamos ou odiamos. Como se entre um polo e outro não existisse uma enorme faixa de possibilidades onde, curiosamente, quase toda a vida acontece.
Pode parecer óbvio, mas a maior parte das coisas nem é extraordinária. Assim como os dias não serão sempre memoráveis. Talvez parte da nossa exaustão venha daí. Viver cercado de superlativos cansa. Hoje, tudo precisa ser incrível, incluindo a gente. A casa, a carreira, o corpo, os filhos, as férias, o casamento. Até o final de semana tem metas bem definidas que vão de dormir bem, ler, meditar e aproveitar a família a fazer exercício, desconectar e voltar renovado na segunda-feira. Ufa! E se não rolar algum dos itens, babau. Instala-se uma crise interna.
Às vezes, chego a me sentir meio deslocada mirando no suficiente. Sabe, aquele bom sem fogos de artifício? E não se trata de mediocridade. Ao contrário. Tenho pensado cada vez mais que nem toda experiência precisa entrar para a lista das melhores realizações. Uma opinião pode ser apenas uma opinião, dispensando uma trincheira de entusiasmados digladiando com quem discorda. Existe um ponto de equilíbrio em que é possível viver sem impressionar ninguém. E tem dias, muitos, eu diria, em que este pode ser o melhor lugar para se estar.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.

























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