O dia em que aprendi a não temer o vento - Por Nana Vier
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Não tenho medo de temporais. Nunca tive. E devo isso à minha mãe.
Lembro de morarmos em uma casa muito grande, daquelas que ecoam certo vazio, com janelas envidraçadas que deixavam tudo entrar: o sol, o luar e também os clarões dos trovões nos dias de tempestade. Quando o céu fechava, ela puxava um banquinho até a janela, e eu subia nele.
Bem em frente havia uma plantação de pinheiros. Nos dias de vento forte, eles balançavam de um jeito quase assustador, como se fossem se retorcer até ceder. O vento levantava redemoinhos com o pó da estrada de chão, e o céu parecia conversar com a terra em estampidos de luz e som.
E nós duas ficávamos ali, olhando.
Para mim, era quase um espetáculo. Para ela, hoje sei, era outra coisa.
Enquanto o vento soprava, ela me contava histórias. Uma delas ficou gravada em mim.
Era sobre um grande carvalho, imponente, forte, orgulhoso de sua altura, de sua madeira resistente, de sua longevidade quase eterna. Ele ria do pequeno capim que se dobrava com o vento, quase encostando no chão. Chamava-o de frágil, de inútil, de insignificante.
O capim não respondia. Apenas se curvava.
Até que, em meio ao temporal, um raio corta o céu e atinge o carvalho. Ele se parte ao meio e tomba, pesado, vencido. O capim, ainda que assustado, continua ali. Balança, dobra, levanta. Permanece.
Na época, eu não sabia exatamente o que aquilo queria dizer. Era pequena demais para buscar moral da história. Não tinha ainda as ferramentas para compreender.
Mas a história ficou.
Anos depois, já adulta, em uma dessas conversas que a gente tem com a mãe — dessas que parecem simples, mas carregam mundos, contei a ela que lembrava daquela cena, do banquinho, da janela, do carvalho e do capim.
Ela sorriu.
E me disse algo que nunca esqueci:
Eu tinha muito medo dos temporais. Teu pai estava trabalhando e éramos só nós duas naquela casa grande. Eu inventava aquelas histórias para me acalmar e para te acalmar também.
Naquele momento, algo se reorganizou dentro de mim.
Porque as mães têm esse poder silencioso. A capacidade quase invisível de transformar medo em coragem, insegurança em abrigo, tempestade em memória bonita. Sobre contar histórias enquanto, por dentro, também se está tentando não desabar.
Minha mãe não me ensinou a ser forte dizendo “seja forte”.
Ela me ensinou ficando.
Inventando histórias.
Segurando o mundo com delicadeza, mesmo quando o mundo dentro dela tremia.
Talvez seja isso.
Não se trata de não ter medo.
Trata-se de aprender, desde cedo, que é possível balançar e ainda assim permanecer.

Nana Vier, é professora e escritora



























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