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O estranho conforto de não fazer nada - Por Nana vier

No começo, não fazer nada dá trabalho. O corpo senta, mas a cabeça continua em pé, circulando pela casa como quem procura uma tarefa esquecida. A mão alcança o celular sem perceber, os olhos caçam notificações, e o pensamento pergunta se não seria melhor aproveitar melhor o tempo. Aproveitar como? Ainda não sabemos.

 

Fomos educados para preencher os dias. Agenda cheia, metas, listas, desempenho. Até o descanso virou atividade: descansar bem, descansar certo, descansar com propósito, como se até o silêncio precisasse entregar resultados. Durante muito tempo carreguei culpa por acreditar que era errado não estar fazendo nada. Aprendi isso a duras penas, entre enxaquecas e noites de insônia, até entender que parar também é um gesto de cuidado.

 

Já foi comprovado que o ócio é criativo. Não é à toa que nos sugerem interromper quando algo não rende, sair para uma caminhada, mudar o foco, o lugar e os ares, para que novas ideias e soluções apareçam. Existe um ponto quase invisível em que algo cede. O relógio deixa de mandar. O corpo desacelera sem pedir desculpas. A culpa cochila no sofá. E de repente não fazer nada deixa de ser vazio e vira espaço. É quando a cadeira na sombra passa a ser suficiente. Quando o café esfria porque ninguém está com pressa. Quando o pensamento vagueia sem GPS.

 

Não há produção, mas há presença. Não há urgência, mas há um tipo raro de inteireza. Nesse estado o tempo não anda em linha reta. Ele se espalha. A gente se encontra em pequenas coisas, no barulho distante da rua, no vento que passa, numa lembrança que surge sem ser chamada. O ócio tão malvisto vira território fértil. É ali que o cansaço verdadeiro começa a ir embora.

 

Não fazer nada é um gesto de coragem. Exige enfrentar o ruído interno, a sensação de improdutividade, o medo de parecer inútil num mundo que confunde valor com movimento. Mas quem insiste percebe que o nada não é ausência. É intervalo. E intervalos salvam.

 

As férias ensinam isso sem alarde. Elas pedem permissão para desacelerar, para existir sem função imediata, para lembrar que a vida não é só o que entregamos, mas também o que sustentamos em silêncio. Quando o nada nos abraça, há conforto. Estranho, sim, mas verdadeiro.

 

Talvez seja ali, nesse espaço onde não se espera nada de nós, que voltamos a ser inteiros, respirando sem pressa, deixando o pensamento escorrer como água calma sobre a alma e descobrindo que até no silêncio existe movimento. 


Nana Vier, é professora e escritora

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