O Fio, o Tempo e a Tesoura - Por Nana Vier
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- 14 de set. de 2025
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Na mitologia grega, o destino não era apenas uma ideia abstrata: tinha nome, rosto e mãos que nunca descansavam. As Moiras — Cloto, Láquesis e Átropos — fiavam, mediam e cortavam o fio da vida de deuses e mortais. Nem Zeus, com todo o peso do Olimpo, ousava questionar suas decisões. Desde cedo, a humanidade parece ter compreendido que há algo de inevitável em existir, algo que nos ultrapassa, um tear invisível onde somos personagens e também matéria-prima. Penso nelas com frequência. Sobretudo nos dias em que a vida parece escapar entre os dedos como areia fina, quando planos cuidadosamente traçados desmoronam, notícias chegam como tempestades inesperadas ou ciclos se encerram sem pedir licença. Nessas horas, tendemos a culpar o acaso, o azar ou mesmo o universo. Mas talvez seja apenas Átropos, com sua tesoura certeira, cumprindo silenciosamente sua parte.
Cloto, a fiandeira, me faz imaginar os primeiros sopros de vida: o choro de um bebê, a respiração que inaugura uma jornada, os encontros improváveis que moldam nossa história. Um café ao acaso, uma palavra dita na hora exata, um olhar distraído que, sem querer, desenha um destino inteiro. Láquesis, com sua fita métrica invisível, parece brincar com o tempo: alguns anos nos escapam como segundos, enquanto outros se arrastam pesados, cheios de significados. E Átropos, com sua lâmina delicada, corta o que já não cabe, o que precisa ficar no passado, ainda que doa, ainda que estejamos despreparados para perder. Há uma estranha poesia nesse tear. Passamos boa parte da vida tentando esticar os fios, costurar os retalhos, remendar as perdas, adiar os finais. Mas talvez seja justamente essa impossibilidade de controle que dá beleza à existência. A fragilidade do fio não é sinal de fraqueza, mas de preciosidade: cada laço que construímos, cada história que bordamos nele carrega uma marca única, impossível de reproduzir.
E cada fase da vida — infância, juventude, maturidade, velhice — parece um novo ponto nesse bordado. A infância, com sua trama solta e colorida, feita de descobertas; a juventude, um bordado ousado, com fios que se cruzam em múltiplas direções; a maturidade, um tecido mais firme, que carrega as cicatrizes das escolhas; e a velhice, uma colcha cheia de memórias, onde cada ponto conta uma história. A finitude, que tanto nos assusta, é também a moldura que dá sentido à obra: é por saber que há um fim que tentamos viver com intensidade. Talvez o segredo não seja temer as Moiras, mas reconhecê-las em nós mesmos. Em cada escolha, estamos fiando, medindo e, às vezes, cortando. Somos, ao mesmo tempo, artesãos e tecido. O destino pode ser tecido por mãos que não controlamos, mas a forma como vivemos esse fio — com presença, coragem e delicadeza — ainda está em nossas mãos. Há quem busque certezas, mas talvez o encanto da vida esteja justamente nas incertezas. A cada dia, a trama pode ganhar novas cores, novos nós, novos remendos. O bordado nunca está pronto. E isso é belo. Mais importante do que o comprimento do fio é o que conseguimos tecer com ele: as amizades sinceras, os amores que aquecem, os gestos de cuidado que deixam marcas profundas.
Que nunca nos falte linha para os afetos verdadeiros, nem coragem para refazer pontos que ficaram soltos. Que ao olhar para trás, mesmo com cortes e emendas, o tecido da vida nos abrace como um cobertor bordado à mão: imperfeito, sim, mas cheio de história, calor e significado. Afinal, a beleza da existência não está em durar para sempre, mas em ser inesquecível.

Nana Vier, é Professora e Escritora






























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