O frio do Rio Grande não vem sozinho - Por Daniela Bitencourt Andara
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- há 16 horas
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O Inverno ainda não chegou, mas o frio..... O frio no Rio Grande do Sul nunca vem sozinho.
Ele sempre traz alguma coisa junto.
Muitas vezes gripe. Às vezes, uma saudade. Às vezes, uma vontade inexplicável de comer bergamota no sol, tomar uma sopinha ou comer um pinhão quentinho ao lado de quem amamos.
Basta esta, baixar um pouco e pronto: já tiramos cobertores do armário com cheiro de guardado e reclamamos no grupo da família com a velha frase:
— " Esse ano o inverno vai ser rigoroso!”
Junto com o frio vêm os meteorologistas. Ah… os meteorologistas....
Esses profissionais, hoje possuem um poder emocional maior do que muito terapeuta.
Porque basta aparecer alguém na televisão falando “El Niño”, “instabilidade”, “alto volume acumulado” e “atenção para os próximos dias” que o gaúcho imediatamente perde a paz interior.
Depois das enchentes, criou-se em mim um novo trauma: o medo do barulhinho da chuva de madrugada.
Antes, chuva forte dava sono. Hoje, dá ansiedade e busca compulsiva pela atualização da Defesa Civil.
E é estranho perceber isso, porque o inverno sempre teve um quê de aconchego. Agora há um certo estado de alerta escondido no meio do cachecol.
Nós Gaúchos não sentimos apenas frio. Gaúchos criam vínculo emocional com a temperatura.
Reclamamos do frio o dia inteiro, mas postamos fotos muito agasalhados em um dia nublado com a legenda :
“Ah, como eu amo o frio.” (eu, particularmente, não gosto nem um pouquinho!!!)
Somos contraditórios. Mas sobrevivemos às baixas temperaturas assim.
Talvez porque, no fundo, o frio faça uma coisa bonita conosco: ele aproxima corpos, reúne memórias e silêncios. Faz a gente lembrar de pessoas, de casas antigas, memórias de reuniões familiares ao redor do fogão a lenha, de vozes que já não estão mais aqui.
O frio sempre abre essas gavetas emocionais.
E talvez seja por isso que ele assuste tanto agora. Porque depois de tudo o que vivemos, não temos mais medo apenas da chuva. Temos medo das muitas lembranças que ele acorda.
Esses dias, olhando uma criança caminhando feliz para a escola, toda desajeitada dentro de um casaco pesado, percebi uma coisa bonita:
A vida continua insistindo.
Mesmo depois da enchente. Mesmo depois do medo. Mesmo depois dos prognósticos assustadores.
O frio chega trazendo lembranças, sim.
Mas ainda bem… Ainda bem que algumas delas continuam sendo de esperança, de família e de aconchego.
Então, que venha o inverno!

Daniela Bitencourt Andara, é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de São Leopoldo
























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