Onde os passos encontram sentido - Por Nana Vier
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- 5 de abr.
- 2 min de leitura
Todos os anos, quando a Páscoa se aproxima, algo começa a se mover silenciosamente em minha cidade. Não é apenas o calendário que avança. São pessoas.
Elas saem de casa ainda no escuro, com tênis gastos, mochilas leves e um motivo que, muitas vezes, não cabe em palavras. Caminham em direção ao Santuário do Padre Reus como quem atende a um chamado antigo, desses que não se explicam, se sentem.
A grande caminhada dos peregrinos, que acontece na madrugada de quinta para sexta-feira santa, não é só um percurso físico. É um atravessamento. De dentro para fora.
Há quem vá por fé. Há quem vá por promessa. Há quem vá sem saber exatamente por quê, mas com a intuição de que precisa ir. E talvez isso já seja suficiente.
No caminho, o ritmo desacelera. O corpo sente. A mente silencia. E, pouco a pouco, aquilo que parecia urgente perde força. A pressa não encontra espaço entre passos longos e respirações conscientes.
Mas há algo que torna essa caminhada ainda mais especial.
Ao longo do percurso, surgem pessoas. Algumas com mesas simples, outras com garrafas térmicas, copos, pão, café. Oferecem água, um sorriso, uma palavra de incentivo. Não perguntam de onde você vem nem por que está ali. Apenas acolhem.
E, de repente, o caminho deixa de ser individual.
Existe ali uma corrente invisível, um cuidado compartilhado que não foi combinado, não foi imposto. Ele simplesmente acontece.
Que sentimento é esse?
Talvez seja fé. Mas não apenas aquela que se volta para o alto. É uma fé que se concretiza no gesto, no cuidado, no outro.
Talvez seja cultura, uma memória coletiva que atravessa gerações e se repete, viva, todos os anos.
Ou talvez seja algo ainda mais essencial, a expressão mais simples e verdadeira do amor.
Em uma semana marcada por símbolos tão profundos, pela dor, pela entrega, pelo silêncio e, finalmente, pela ressurreição de Cristo, essa caminhada ganha um significado ainda maior.
Porque Ele vive.
E, se vive, se revela.
Se revela no gesto de quem oferece água.
No cuidado de quem prepara um café.
Na palavra de quem encoraja um desconhecido a seguir.
A Páscoa, ali, deixa de ser lembrança e passa a ser presença.
Ressurge o tempo. Ressurge a escuta. Ressurge o sentido.
É curioso perceber como fé, cultura e generosidade se encontram nesse movimento. A cidade se transforma. As ruas ganham vida. As histórias se cruzam.
Mas o essencial continua sendo invisível.
Ele está no encontro. Na partilha.Naquilo que não se explica, mas se sente.
Talvez seja por isso que essa caminhada cresce a cada ano. Porque, em um mundo acelerado e barulhento, caminhar virou uma forma de voltar.
Voltar para si. Voltar para o outro. Voltar para aquilo que sustenta.
No fim, chegar ao Santuário importa, sim. Mas não é só sobre chegar.
É sobre quem nos tornamos ao longo do caminho.
E é exatamente isso que a Páscoa tenta nos lembrar todos os anos:
Que a vida sempre encontra um jeito de renascer.
Feliz Páscoa!

Nana Vier, é professora e escritora
























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