Precisamos de um novo marco civilizatório - Por Magali Schmitt
- Andressa Brunner Michels - Jornalista - MTB 19281/RS

- há 2 dias
- 2 min de leitura
Desde que fomos apresentados ao Mundo Invertido de Hawkins tenho a impressão que por estas bandas também estamos vivendo em outra dimensão sombria e paralela. Na ficção é legal, descolado. Na vida real, nem tanto. A versão em decadência de um microcosmo que em nada difere do macro. Mas operar em uma frequência diferente tem um preço.
O desfecho da série, controverso para uns, satisfatório para outros, desmonta nosso desejo juvenil de ver o mocinho e a mocinha felizes para sempre. Para o bem geral, eles precisam sacrificar a própria felicidade — um altruísmo que não se vê mais hoje em dia e, que só funciona, no realismo fantástico.
Desse lado da selva de pedra está difícil encontrar tanto desprendimento. Mas no quesito trama elaborada, damos de dez. Temos desembargador acusado de abuso sexual absolvendo réu de estupro de criança. Ministros da mais alta corte se autoprotegendo. Deputados trocando socos em rede nacional. Abuso de poder para proteger abuso de poder.
Se não estamos no mundo invertido há algo de muito errado acontecendo por aqui. E ao contrário de Stanger Things, ninguém com superpoderes virá derrotar nossos demogorgons. Não vai ter batalha nem plano mirabolante para evitar o fim. Vamos ter de enfrentar nossos monstros sozinhos. Se fomos capazes de criá-los, deve haver um jeito de retroceder, de começar do zero.
Pode ser nosso marco civilizatório. O reinício. Porque não podemos mais seguir nesta direção. Está, acima de tudo, perigoso. O país se tornou insalubre, não recomendado. E não se trata apenas dos governantes, apesar de os holofotes estarem todos voltados para eles nesse momento. É geral.
A corrupção começa quando a gente não devolve o troco a mais, quando fura a fila, passa o sinal fechado, ultrapassa pela direita. Quando nossos filhos dizem aos professores que quem paga o salário deles somos nós, quando usamos amizades para obter vantagens. A banalização desses delitos cotidianos nos faz fechar os olhos para falhas mais graves de caráter.
Como tem ficado cada vez mais claro, somos todos cúmplices desse sistema, em maior ou menor grau. E não levanto o dedo para apontar quem quer que seja. Me incluo. Se não estão todos se blindando, o que mais pode ser? Por que vozes não se insurgem na multidão? Onde estão nossas instituições?
Antes de nos perdemos de vez como nação deveríamos fazer um exercício individual de consciência e avaliarmos se estamos dispostos a entrar nessa luta. Sou uma entusiasta da humanidade e sempre acredito que é possível. A diferença é que não haverá trilha sonora dos anos 80 nem bicicleta salvadora cruzando a rua em câmera lenta. Precisamos escolher de que lado da fenda queremos estar.
O que existe é o gesto mínimo, quase invisível, de interromper a engrenagem — recusar a pequena vantagem, cobrar o que é público, proteger o que é coletivo, sustentar a ética quando ninguém está olhando.
Talvez nosso verdadeiro marco civilizatório não seja um grande evento, mas essa sucessão de escolhas miúdas que fecha, pouco a pouco, as brechas por onde os monstros entram. Porque o Mundo Invertido só vence quando desistimos de ser comunidade. E, ao contrário da série, ainda temos a chance de escrever um final que não dependa do sacrifício de poucos, mas da coragem cotidiana de muitos.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.























Comentários