Páscoa: A delicadeza de renascer - Daniela Bitencourt Andara
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A Páscoa nunca foi e não é apenas uma data no calendário, dessas que a gente marca, circula e muitas vezes esquece. Também não cabe dentro de um feriado ou de um ritual repetido sem presença. A Páscoa, para mim, sempre pareceu um convite. E, sabemos que, convites, quando são de verdade, não aceitam desculpas: pedem resposta, movimento, escolha.
Não, ela não mora no chocolate gostoso que derrete fácil demais. Mora naquele silêncio meio incômodo de quem decide recomeçar. Mora no perdão que a gente quer dar/pedir mas adia, ensaia, tropeça e quem sabe um dia consegue finalizar. E, principalmente, na coragem quase teimosa de seguir em frente, mesmo quando ainda dói.
A Sexta-feira Santa chega, de mansinho, sem pedir licença, carregando um silêncio que não é confortável. E obriga a gente encarar o que procuramos evitar durante o ano que passou: julgamentos apressados, impaciência crônica, pensamentos duros, dificuldade (quase orgulho) de não perdoar.
Não é só sobre uma morte distante no tempo. É sobre tudo aquilo que, no cotidiano, continuamos matando aos poucos: fé nas pessoas, esperança no futuro, paciência no cotidiano, empatia nas relações.
A verdade é que, nas últimas décadas, entramos no automático. Informações demasiadas, opinião exageradas, ego nas alturas. E, no meio desse excesso todo, fomos ficando escassos de muitas coisas essenciais: sentido, humanidade, afeto real. Curioso ou talvez inevitável.
É por isso que a Páscoa nos faz tanta falta. Não como tradição, mas como pausa. Como lembrança boa de que é possível (e necessário!) olhar para dentro e reorganizar o que anda desmoronando por dentro da gente.
Porque não existe ressurreição sem pausa, sem travessia. Sem aquele momento desconfortável de reconhecer que é preciso começar de novo. E recomeçar, convenhamos, não é sossego e nem romantismo, dá trabalho, exige coragem. Não existe vida nova sem abrir mão de velhos hábitos, velhas dores, velhas versões de nós mesmos que já não cabem mais.
A pergunta que fica, meio atravessada e engasgada: estamos dispostos a renascer? Estamos dispostos a Ressuscitar?
Num mundo que anda tão informatizado, tão apressado, tão superficial, tão endurecido.... Entre guerras, intolerâncias, preconceitos e indiferenças talvez o maior ato de coragem seja desacelerar e olhar para dentro. Reconhecer nossas próprias e pequenas crucificações diárias: aquelas que infligimos aos outros e, principalmente, a nós mesmos.
E então, quem sabe, permitir que algo novo ressuscite. Não como milagre distante, mas como escolha consciente. Como decisão íntima.
No fim das contas, a Páscoa não é sobre um dia. É sobre um movimento interno. Sobre a delicada e poderosa coragem de acreditar que recomeçar ainda é possível.
E talvez seja.
Feliz Páscoa!

Daniela Bitencourt Andara, é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de São Leopoldo




























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