Quando a autoridade do professor é desafiada: impactos na escola pública, na saúde mental docente e na educação - Por Rosi Petersen
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No trabalho do sindicato tornou-se cada vez mais comum relatos de professores/as que se sentem acuados/as diante de um fenômeno preocupante: pais que acreditam que seus filhos estão sempre certos e que, diante de qualquer correção ou repreensão docente, transformam a escola em um palco de conflitos. Essa inversão de papéis tem fragilizado a autoridade docente, comprometendo o ambiente escolar e afetando profundamente a saúde mental dos educadores.
Historicamente, o/a professor/a tinha grande respeito social e essa confiança está enfraquecida hoje. Em muitas das nossas escolas municipais, docentes relatam ser desautorizados/as por pais na frente dos filhos, o que não apenas constrange, mas desestabiliza a relação pedagógica. O resultado é uma sala de aula onde regras e limites se tornam frágeis, dificultando a aprendizagem coletiva.
A crença de que o aluno deve ser sempre defendido, mesmo quando erra, a princípio parece proteção, mas impede que crianças e adolescentes aprendam a lidar com frustrações e responsabilidades. Na escola pública, onde a diversidade de realidades sociais impõe desafios enormes, a ausência da autoridade docente agrava ainda mais a indisciplina e a dificuldade de ensino. Esse cenário recai de forma intensa sobre os docentes da rede pública, que já lidam com turmas numerosas, falta de infraestrutura e carência de recursos pedagógicos. Muitos relatam medo de aplicar regras ou de adotar uma postura mais firme, receando ser mal interpretados. O desgaste é enorme: professores acabam consumindo energia não só para ensinar, mas para se defender de possíveis acusações. O resultado é o aumento dos casos de Burnout, depressão, ansiedade e afastamentos por licença saúde, que hoje se tornaram realidade comum nas escolas públicas.
O debate sobre esses conflitos muitas vezes se concentra apenas no comportamento de estudantes ou na postura das famílias, mas deixa de lado pontos cruciais: o exemplo dado aos estudantes, quando familiares desautorizam professores/as demonstram que regras podem ser sempre desrespeitadas; o impacto é coletivo, pois toda a turma perde quando o/a professor/a não consegue manter a disciplina; o papel do Estado na ausência de investimento em equipes de apoio psicólogos, mediadores e orientadores, sobrecarrega o/a professor/a, que precisa lidar sozinho/a com questões que vão muito além do ensino; a desigualdade e a falta de recursos agravam a tensão, tornando conflitos mais frequentes e difíceis de mediar.
É impossível enfrentar esse cenário sem investimento real na educação pública. Isso significa: garantir salários dignos e condições adequadas de trabalho aos professores; investir em infraestrutura escolar, assegurando ambientes seguros e preparados para a aprendizagem; ampliar o número de profissionais de apoio, como psicólogos, assistentes sociais e orientadores educacionais; oferecer formação continuada, para que o professor da rede pública esteja preparado para lidar com os desafios contemporâneos da sala de aula; investir na escola pública é investir na democracia, na igualdade de oportunidades e no futuro do país. Sem professores valorizados e sem escolas fortalecidas, o ciclo de desigualdade se perpetua e a sociedade inteira perde.
Para reverter essa realidade, é necessário: fortalecer a parceria entre famílias e escolas públicas, para que não se transformem em lados opostos; restaurar a autoridade pedagógica, reconhecendo que o professor é o pilar da educação pública; exigir políticas públicas robustas, que assegurem apoio psicológico, estrutura e dignidade aos trabalhadores da educação; construir uma cultura de respeito e diálogo, onde disciplina não seja confundida com violência, mas entendida como cuidado e responsabilidade na formação dos alunos.
Desabafo final
Quando pais desautorizam professores e transformam a escola pública em palco de conflitos, não é apenas o/a professor/a que sofre, mas estudantes que deixam de aprender valores essenciais e a sociedade que perde cidadãos/ãs preparados/as para a vida coletiva. Valorizar o professor, cuidar da sua saúde mental e garantir investimento estruturado na educação pública não é um favor: é a única saída possível para assegurar uma escola de qualidade.

R0si Petersen, é professora da rede municipal e vice-presidenta do Ceprol Sindicato



























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