Quando a Conveniência Veste a Roupa da Convicção - Por Nana Vier
Conta-se que havia um viajante conhecido por defender, com enorme entusiasmo, a qualidade de todas as hospedarias por onde passava. Elogiava os quartos, a comida, a vista das janelas e a gentileza dos anfitriões. Dizia que jamais encontrara lugar melhor. Repetia isso com tanta convicção que muitos acreditavam estar diante de um homem movido por sólidos princípios.
Um dia, porém, ao chegar à hospedaria de sempre, descobriu que seu quarto preferido havia sido entregue a outro viajante. Também não recebeu o lugar de destaque à mesa nem os pequenos privilégios aos quais se acostumara. Na manhã seguinte, percorreu a vila anunciando que aquela hospedaria era mal administrada, que as camas eram desconfortáveis, a comida sem sabor e os donos incapazes de conduzir a casa.
Os moradores estranharam. Afinal, nada havia mudado de um dia para o outro. As paredes eram as mesmas. A comida seguia a mesma receita. As pessoas continuavam trabalhando da mesma maneira. O que havia mudado era apenas o lugar ocupado pelo viajante dentro daquela história.
Um velho observador, que passava as tardes sentado sob uma figueira, comentou que esse tipo de transformação sempre lhe despertava curiosidade. "Há pessoas", disse ele, "que acreditam defender ideias quando, na verdade, defendem apenas a posição que ocupam. Enquanto essa posição lhes oferece conforto, chamam isso de convicção. Quando o conforto desaparece, chamam de perseguição."
A filosofia há muito descreve esse fenômeno. Os estóicos lembravam que a verdadeira virtude independe das circunstâncias. Aristóteles afirmava que o caráter se revela na constância dos hábitos, não na conveniência do momento. Muito mais tarde, pensadores da antropologia observaram que o ser humano costuma reinterpretar a realidade para preservar a própria imagem, convencendo-se de que suas mudanças nasceram de novos valores quando, muitas vezes, nasceram apenas de novos interesses.
Talvez por isso exista um antigo ensinamento que atravessa gerações: é fácil defender uma casa enquanto ocupamos a melhor poltrona. Difícil é continuar reconhecendo seu valor quando somos convidados a sentar em outro lugar.
No fim, o tempo quase sempre faz o trabalho que as palavras não conseguem. Ele separa quem permaneceu fiel aos próprios princípios de quem apenas permaneceu fiel às próprias vantagens. Porque as convicções verdadeiras resistem às perdas. As conveniências, ao contrário, costumam mudar de endereço com impressionante rapidez.

Nana Vier, é professora e escritora

























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