Quando o problema não é a idade, mas o preconceito - Por Nana Vier
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Dia desses, viralizou nas redes um vídeo de festa que, por algum motivo, despertou mais opiniões do que sorrisos. Nele, uma mulher dançava linda, segura, vestido colado, cabelão impecável ocupando o espaço com a leveza de quem sabe que alegria não precisa pedir licença. Bastou isso para surgirem comentários apressados: “sem noção”, “pagando mico”, “não tem idade pra isso”. É curioso como ainda esperam que mulheres adultas sigam um manual invisível que condena qualquer felicidade mais expansiva depois dos quarenta. Mais curioso ainda era o fato de a maioria dos comentários serem de outras mulheres.
Era só uma mulher viva, presente, entregue ao próprio corpo, celebrando um instante simples. Mas liberdade feminina especialmente quando vem acompanhada de linhas de expressão, história e segurança incomoda muita gente. Crescemos numa sociedade que trata juventude como moeda e maturidade como débito, como se o tempo fosse um inimigo e não um privilégio.
Nós, mulheres adultas, conhecemos bem essa régua torta. Se rimos alto, é exagero. Se dançamos, é inadequado. Se usamos vestido colado, é ousadia demais. Curiosamente, se ficamos quietas, nos chamam de elegantes. A régua não mede idade: mede controle. Mede o tamanho do espaço que acham que devemos ocupar e, de preferência, que seja pequeno.
Eu não romantizo tudo. Não gosto de ser grisalha e seguirei pintando meu cabelo enquanto houver tintura no mundo. Me reconheço assim. Mas acho lindo quem assume seus fios brancos. A verdadeira beleza está na liberdade de escolher o que nos faz bem. Cada mulher é especialista em si mesma e ninguém deveria auditar a escolha alheia como se fosse uma obrigação social.
E há uma verdade que ninguém gosta de encarar: envelhecer é uma bênção e é para poucos. Continuar viva, carregando histórias, afetos, tropeços e reinvenções, é privilégio. Não me preocupa o que dizem sobre nós, mulheres de 40, 50+. A maioria de nós já aprendeu a filtrar bobagens com a mesma habilidade com que filtra grupo de WhatsApp.
E não, eu não vivo fingindo que a idade não me define. Define, sim. Sou uma mulher com menos colágeno e a gravidade é cruel, mais creme no banheiro e uma dorzinha nas costas que aparece do nada. Mas também sou uma mulher com vontade de viver, viajar, inventar moda, usar um vestido novo só para alegrar a alma e me aconchegar nos braços do homem que amo um lugar onde o tempo perde completamente a autoridade.
O que me inquieta é o peso que esse olhar pode ter sobre as jovens de hoje quando elas chegarem na nossa idade se tiverem a graça de chegar até lá. Crescem ouvindo que o maior elogio é “não aparenta a idade”, como se parecer a idade fosse erro e não evidência de vida. Se acreditarem nisso, viverão com medo de existir.
Mas chegará o dia e chega para todas em que nenhuma mulher será medida pela juventude que perdeu, mas pela luz e sabedoria que carrega. Pela alegria que acende ambientes. Pela presença que deixa rastro. O que nos define depois dos anos não é a aparência, e sim a maneira como existimos.
Se um dia me filmarem dançando numa festa, quero que digam apenas: “Olha lá a Nana, feliz.” Só isso. Feliz. Porque, no fim, é isso que importa. Que cada mulher jovem ou madura descubra que viver já é, por si só, uma ousadia enorme. E dançar, então, é quase um manifesto. Que sejamos muitas fazendo esse manifesto sem medo, sem vergonha e sem pedir permissão para existir.
Porque, no fim, a vida não quer perfeição: quer presença. Quer coragem. Quer verdade. E se envelhecer nos dá tudo isso, então que venham mais anos com dança, amor, boas histórias e a liberdade de ser quem somos sem pedir licença.
Nana Vier, professora e escritora































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